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20-05-2012 19:22:00

Tentativa de golpe eleitoral

Tentativa de golpe eleitoral

 

Tentativa de golpe eleitoral

Rogel Samuel


A explosão do julgamento do “mensalão” no segundo semestre deste ano, no meio do processo das eleições, é mais uma tentativa da direita de tirar o Partido dos Trabalhadores do poder.

O julgamento no Supremo vai virar um espetáculo pirotécnico da televisão diária, com bolsas cheias de dinheiro, com manchetes bem editadas para “escandalizar” o eleitor e fixar a ideia de que o partido é um bando de ladrões.

O que não será dito é que o PT estava endividado na época (e talvez ainda esteja), que nada foi provado da existência do mensalão, que tudo aquilo começou com o Senador mineiro Eduardo AzeredoPSDB, que é um homem honrado, que no dia 14 de setembro de 2011, Roberto Jefferson em sua defesa no STF, disse que o "Mensalão nunca existiu. Não foi fato. Foi retórica”(Hildegard Angel - R7.com - setembro de 2011.
O estrago vai ser grande.

 

03-05-2012 18:07:00

Novo livro de Rogel Samuel

NOVO LIVRO DE ROGEL SAMUEL

O novo livro de Rogel Samuel em breve estará disponível aos leitores

26-04-2012 08:26:00

A obra póstuma

A obra póstuma

 

 

 A obra póstuma

 

Rogel Samuel

 

 

De modo que, amigo/a leitor/a, foi assim que Guimarães Rosa iniciou um discurso na Academia de Letras... pela conclusão. Um dia desses conto para você como foi o meu encontro com Guimarães Rosa. Hoje não. Hoje quero dizer que a tarde está fria. Chris, ou o seu disco, toca uma sonata de Schubert. Todas as tardes frias se parecem com uma sonata de Schubert. Eu só sei disso por ouvi-las numa tarde fria e escura. As tardes frias e escuras são profundas. Não é a toa que o carioca é leviano. Aqui não há tardes frias e escuras. Só dá para ser superficial. Chris é de Portland, no Oregon. Há paredes, na sonata de Schubert. Paredes por onde a imaginação se debate, entre esses muros ela se agita, sonha com o espaço. Ninguém pode prender um homem livre. Podem encarcerá-lo na profundeza das mais secreta masmorra, mas internamente ele permanece livre, disse alguém. Na sonata em A maior, está dito "Opus Posthumous", D. 959. É assim, nessa tarde póstuma. A sonata da morte. Mas tão leve, tão linda. Um dia estive para morrer, fui entrando num bom estado de paz, de tranqüilidade... até que o médico me deu uma injeção e despertei neste nosso mundo. Chris, eu me lembro dele em Friday Harbour, Whashington DC. Havia um piano velho, descobrimos um piano velho, no fundo do estádio, onde todos os dias Chris ia praticar. O teclado estava meio solto. O velho piano quebrado. Lá, eu, ele e Chrystal, sua esposa, ouvíamos Beethoven. Era o único piano daquela parte da ilha. Opus Posthumous, diz o disco. Tão fria, tão bela, e tão póstuma. Lembra a limpidez frígida do túmulo.

            A segunda vez que o encontrei foi na Austrália. Lá ele tinha um teclado portátil, com o qual podia tocar o Cravo Bem Temperado de Bach.  Som de cravo. Nós estávamos no meio de uma grande floresta, alguns quilômetros de Kyogle. Ao amanhecer havia vários animais. Nos cercavam, nos espiavam. Pessoas falavam que ali havia as mais venenosas serpentes. A Austrália é a pátria das serpentes. Negras, veludo negro liso. Aquele era um lugar extraordinário: Vajradhara Gompa. As noites punham tantas estrelas que entontecíamos só de vê-las e pensá-las. Oh, Montanhas.

            Sydney. Lembro do hotel Sullivans, Oxford Street 21, em Paddington. A vida noturna da cidade. Pubs, clubs. Visitei a exposição de Sebastião Salgado ali.  Sydney é a capital da fotografia. Há um erotismo no ar. Respira jovialidade e democracia. Eu quase fico lá, de vez. Não há crimes, nem violência, em Sydney. Culturas variadas em harmonia. Fraternidade universal. Em Paddington estávamos em paz. Ouvi a Quarta Sinfonia de Brahms naquela monstruosa Opera House. Infelizmente a Orquestra Sinfônica de Sydney deixa a desejar. Ou aquele maestro. É certo que sou fanático desta sinfonia. Tenho dela diferentes gravações. A melhor, para mim, é a de Bernard Haitink, com a Boston Symphony Orchestra.

                        Vou escrever uma crônica para deixar na gaveta. Quando eu morrer, alguém, a amiga Nappy por exemplo, deve publicá-la. E publicar com o aviso: "Opus Posthumous". Chic.

15-04-2012 09:05:00

Aniversário de Arthur Engrácio

 

 

 

Aniversário de Arthur Engrácio

 

Rogel Samuel

 

Amanhã, dia 16, Arthur Engrácio faria 85 anos se estivesse vivo.

Ele é um dos maiores escritores do Norte do Brasil, reconhecido internacionalmente.

Fui eu quem lhe informou que ele estava numa antologia americana.

Ele era um grande amigo à distância e, de todos os críticos da literatura amazonense, um dos poucos que reconhecia meu nome, ele e Anísio Mello.

Nós nos correspondíamos com frequência.

Nasceu em Manicoré, rio Madeira, no Amazonas, no dia 16 de abril de 1927, era jornalista em Manaus, escreveu contos magníficos. Em 1960, publica Histórias de Submundo, depois  Restinga, 1976; Ajuste de contos, 1978; Contos do mato, 1981; Estórias do rio, 1984; 20 contos amazônicos (coletânea), 1986; Outras estórias de submundo, 1988; A Vingança do boto (coletânea), 1995. Romance: Áspero chão de Santa Rita, 1986. Organizou ainda a Antologia do novo conto amazonense, em 1971. E vários livros de crítica literária.

Faleceu em Manaus no dia 2 de abril de 1997.

Vamos reler um conto de Arthur Engrácio, do seu livro Contos do mato:                             :

“A Vingança do boto

I

Tinha pressa de chegar. Nicó, no fundo da maqueira, escanzelada que só uma cachorra velha, já devia ter feito umas cem promessas para ele voltar. O danado do peixe o levara longe, mas ali estava estendido, a bocarra aberta para ele como se quisesse dirigir-lhe insultos ou palavras de recriminação. Bom aquele momento. Sentia que depois da luta com o pirarucu, os nervos se relaxavam, a cabeça voltava ao normal. Bom mesmo aquele momento. Não fosse a cabocla doente, suspenderia o remo dágua e deixaria que a canoa por si só fizesse a viagem de retorno. Experimentaria com mais deleite aquela brisa gostosa que a hora do crepúsculo deixava escapar, agitando de leve as flores dos mururés. Retirou por um instante o remo dágua, juntou as mãos em concha e pôs-se a beber. As escaramuças com o bruto o deixaram sequioso. Depois lavou o rosto e atirou uma golfada dágua no peixe, que continuava a olhá-lo, a bocarra aberta, os olhos vermelhos de vingança.

– Conheceste, pai-d’égua!?

Tática ele tem. Força está naqueles enormes músculos, que sobem e descem acompanhando o ritmo do remo. A questão é encontrar mais pirarucu para matar, tirar-lhe as escamas, abrir-lhe a carne em postas e ir vender pro seo Euzébio. Não gosta de pensar no seo Euzébio. Por Deus!, lhe vem logo aquela quizília besta que lhe dá vontade de acabar com a sua raça. Nicó já lhe tem dito: “Por que tu não procura outro patrão, Zé? Com esse seo Euzébio, nós não vai alevantar nunca a cabeça, te digo!...” Procurar outro patrão, como? Se ele era cativo do danisco, devia ao praga até os fios dos cabelos!? Sim que havia uma esperança – muito remota, sim, mas havia.

Mergulhado em seus pensamentos, Zé Porfírio não percebe que os primeiros morcegos e as primeiras corujas já começam a arrastar a noite pelo caminho. Sua visão é mais curta, mas a brisa é mais fria e suave. E ele pensa. Pescaria, doença de Nicó, safadezas do seo Euzébio. Todo ano projeta pagar sua conta e levantar acampamento, procurar vida melhor, botar roçado, ter ao menos quatro pés de maniva. Chegar com o estuporado e atirar-lhe aos pés uma canoa abarrotada de borracha e mantas de pirarucu. “Taí, seo unha-de-fome! Agora é riscar a nossa continha, se faz favor!” Depois, para debochar dele, encher as mãos com a sua coisa e mostrar ao diango.

“– Tome, seo Euzébio, o que o senhor carece é disto pra não ser ladrão. Tome!...”

Sorri de si mesmo, enquanto maneja o remo com mais força. A febre deve estar assando Nicó. Engraçado. Pensa tudo isso, mas na frente do seo Euzébio se desmancha em mesuras, o chapéu de palha varrendo o chão. Gostaria de saber por que a sua coragem tem a natureza de lagartas.

II

Zé Porfírio rema com mais rapidez para fugir do bando de botos que lhe persegue a montaria. Estariam atraídos pelo sangue do peixe? Não trouxe a espingarda, se tivesse trazido já teria largado uma carga de chumbo nesses cabeças furadas. Volteiam a canoa, dão mergulhos alternados e soltam assobios que fazem estremecer as folhas das árvores próximas. A escaramuça dos animais não o intimida, mas o deixa nervoso. Boto é bicho encantado, todo mundo diz, tem parte com o Capeta. Maria Castanheira é quem sabe de uma estória estranha desse irmão do Chifrudo. Faz muito tempo, no lugar Sapucaia, pela festa de Santo Antônio, o Boto apareceu. Vinha vestido de branco, de gravata borboleta, o chapéu de palhinha jogado de lado na cabeça. Os olhos muito azuis e brilhantes, pareciam ter por dentro uma carga intensa de luz. Na porta do salão, ajeitava constantemente a gravata, corrigia a posição do chapéu na cabeça e olhava com estranho interesse os dançantes. Não estivessem eles tão absorvidos pela festa, veriam que, por onde o Boto passava, ia deixando uma esteira luminosa, que parecia magnetizar os que eram tocados por ela.

A festa entrava, já, pelos cinco dias e cinco noites e os festeiros não tencionavam parar. Bebida era como nunca se tinha visto, os quartos de anta e veado, paca e caititu, nos espetos, fumegavam sobre o braseiro colossal. Nunca havia presenciado coisa assim. Nenhuma preocupação lhes perturbava o espírito, o que queriam era dançar, beber, comer e amar. Ao som do violão e do cavaquinho, do maracá e das tabocas, os corpos bamboleavam cheios de lubricidade. Só Maria Castanheira não dançava, havia ido ali para pagar uma promessa. E foi assim que ela pôde ver o mal-assombrado aproximar-se do salão. Sem se perturbar, fazendo de instante a instante o sinal-da-cruz, correu para avisá-los. Acenou-lhes com a mão, gritou-lhes em alta voz, mas em vão. Ouviam-se apenas os gritos dos brincantes reboarem no salão acompanhados da voz ensurdecedora da orquestra. Uma alegria quase diabólica contagiava o ambiente. Mulheres incitadas pelo álcool, nuinhas atiravam as vestes para todos os lados. Foi aí que o Encantado entrou. Correu a vista pela sala e sua atenção, como flecha que busca o alvo, caiu sobre Jacira, a cabocla mais faceira de Sapucaia. Perto dela, falou:

– Vamos dançar esta parte?

Ela o olhou de cima a baixo, o beiço virado de deboche e respondeu que não dançava com desconhecidos. O estranho, como se houvesse recebido forte bofetada, a passos largos, retirou-se da sala. Maria Castanheira, que tudo presenciava, saiu-lhe nas pisadas e pôde ver quando ele se atirou nágua, indo boiar no meião do rio, assoviando o seu assovio de Capiroto. Não tinha mais dúvida. Era ele mesmo, o Boto, que tinha vindo flechar Jacira, a cunhã de corpo belo e recendente a pripioca e que, por diversas vezes, quando estava nos seus dias e ia lavar roupa ou se banhar, ele já havia tentado flechá-la. E iria vingar-se, que o Boto é vingativo. Em vão tentou chamar de novo a atenção dos festeiros – eles só dançavam e riam, acompanhados de um batecum feroz, satânico, formando com a música uma cadência impressionante. Via que era mesmo inútil trazê-los à realidade, e tratou de retirar-se. Foi ela entrar na canoa e a terra começou a estremecer, surgindo enormes fendas que iam engolindo a multidão, os gritos de desespero se perdendo agora no espaço, o ar tomando aquela feição trágica e desoladora. Sem se voltar para trás, procurou alcançar a outra margem do rio, remando sem parar. E foi aí quando correu pelos céus aquele forte estrondo. Apavorada, voltou a vista para Sapucaia só com tempo de ver o último pedaço de terra desaparecer na imensidade das águas barrentas. O Boto havia se vingado, levando Jacira e o resto dos festeiros para o fundão do rio, lá onde tem o seu reino encantado.

III

Em noites de junho, pelas festas de Santo Antônio, vem do fundo das águas, entre espumas, rebojos e vozes fantásticas, o primitivo rumor do pagode – som de flauta, repinicar de cavaquinho, gemidos de sanfona e violão, que acompanham, em estranha cadência, os festeiros de Sapucaia.

Maria Castanheira quando contava isso, esconjurava e se benzia toda, dizendo que aquilo foi castigo de Nossossinhor.”

02-04-2012 20:39:00

Quietude

Quietude

 
QUIETUDE
 
Rogel Samuel
 
Ungaretti está em quietude, no lar.
 
O poema de Giuseppe Ungaretti, “Quietude”, excelentemente traduzido por Menotti Del Picchia, cheio de mistério, visibilidade, clássico, suavidade oriental (parece um haicai), simples, concentrado, poucos versos, sempre releio quando estou em paz.
 
A princípio pensamos a paisagem. Depois vemos a vida.
 
Em declínio?
 
 
“A uva está madura e o campo arado,
o monte se destaca das nuvens.
 
Nos poentos espelhos do verão
caiu a sombra
 
Entre os dedos incertos
sua luz é clara
e longínqua
 
Foge com as andorinhas
o último desespero”.
 
 
Várias maneiras há de ler esta pequena obra-prima.
 
Vamos dedicar-nos hoje ao tema da velhice.
 
Calma, paz, serenidade, silêncio interior se encontram nessa “quietude”, no título.
 
Equilíbrio tranqüilo consolida essa entrada, nesta cena, na horizontalidade do campo.
 
Nada pode perturbar, as andorinhas do verão estão partindo.
 
Só, ao longe, o monte.
 
“A uva está madura e o campo arado” significa que tudo está feito, tudo, para ser colhido, para ser plantado. É como se ele dissesse: enfim fiz, enfim produzi e realizei o que tinha para ser plantado e colhido, minha vida está aí, vem agora o Outono, vem agora a Noite, mas estou eu preparado para ela, antes do Inverno eu já terei colhido, antes do Inverno eu já terei plantado.
 
E tudo nesses UU de “uva”, de “madura”.
E nesses AA de “campo, de “arado”.
 
“A uva está madura e o campo arado” é, pois, em si, um poema-síntese, um poema-preço, uma ponte-poema, um cartão-postal, janela em que eu me contemplo, me vejo, me sei, me testo, pois “a uva está madura e o campo arado” e fui eu quem assim o quis, assim o fiz, tudo está pronto, a mesa posta, o verso escrito, o rumo tido, a estrada andada.
 
Ungaretti sintetiza neste verso o que diz: cumpri o meu dever, cumpri o meu destino, tive o meu dia, produtivo, e agora posso estar em paz. Deixo ao tempo a conclusão, a solução, o desfecho.
 
“A uva está madura” e vou colher.
“O campo arado” e vou plantar.
 
Ungaratti colhe para plantar, em vez de planta para colher. A colheita significa que agora tenho o que plantar, e na relação da uva com o campo se costura a união do maduro com o arado. Nas uvas o campo está arado, no campo as uvas estão prontas para serem colhidas. E sobre a terra desta maneira há serenidade, há paz, o sol se põe, os dedos espelham luz, as andorinhas, o ar, o sagrado monte entre as nuvens, muito longe, muito alto, muito sereno, para onde vai o olhar.
E a luz declina, talvez também as forças, o esforço, o trabalho concluído.
 
A luz declina, no brilho dos espelhos do verão, na sua luz metálica.
 
Ungaretti está em quietude.
 
No lar.
 
 
01-04-2012 17:28:00

No verão

No verão

 



Rogel Samuel

No meio da noite, acordo. Sufocante calor. O suor escorre. Como se estivesse febril. Tomo uma ducha. Três horas, madrugada. No silêncio, meu banho na noite abre um túnel. Dormi cedo. Vim da Cinelândia, onde jantei. No restaurante, dois velhos bêbados. Cantavam árias. Cheguei em casa. Vi "O clone". Minha amiga L. ironiza, porque vejo "O clone". Gosto. Ela é intelectual. Por princípio, intelectual não vê novela de TV. Intelectual tem princípios. Gosto de "O clone", aquelas paisagens, personagens, dignos de Jorge Amado. As classes sociais, representadas. Menos favela. Os velhos bêbados silenciam, pesados de cerveja. Aparece um vendedor de meia idade. Vende caleidoscópios. Um dos velhos compra. Agora, os velhos se divertem, metem um olho no tubo. Goles de cerveja alternam com olhadelas. Atacam de Carlos Gomes: "Quando nascesti tu". Noto que são músicos. Aposentados. Gritam. O dono do restaurante sai da cozinha, furioso por cima dos óculos, mas volta. Minha amiga L. tem Ruy Barbosa na família. Mas não diz pra ninguém. Se envergonha. "Um reacionário", diz ela. Ela se ri, quando digo que gosto de ler Ruy Barbosa. Com "y". Ela, intelectual de esquerda, tradutora. Gosto de estar com ela, na mesa de bar. Conversamos. Certa vez, no Lamas, fomos até 3 horas da madrugada. Naquela noite chegou o amigo CL, que mora em São João del Rey. Especializado em Graciliano. Os velhos têm repertório. "Senza tetto, senza cuna", d' "O guarani". Outros velhos chegam para a mesa de velhos. Reunião. Juntam-se mesas. Mais cinco velhos. Um, de bengala. Sentam-se, mas logo se espantam com os colegas bêbados. Nenhum se senta perto dos ébrios. Um deles, crítico, severo, faz careta desabonadora, balanços de cabeça. Olha para os lados. Me vê. Percebe que os observo. Rápido, recolho o olhar, surpreendido e indiscreto. Os chegados não bebem, menos um, que pede uma cerveja, enche o copo e finge. A cerveja é esquecida no copo. Decorativa. Todos próximos dos oitenta anos. O de bengala se instala com um sorriso de pedra, esfíngico, fixo. O outro, moralista, critica com levantares de sobrancelhas. Penso que está para retirar-se, envergonhado, pois os bêbados cantam alto, chamam atenção mesmo dos que passam na rua Álvaro Alvin. Aparece outro vendedor. Este vende óculos. É um oriental afeminado. Um dos cantores bêbados, eufórico, experimenta os óculos escuros. Levanta-se, gesticula, no "sento una forza indomita", de Il Guarany. Para horror de todos, convida o vendedor afeminado para a mesa. Ele se senta, feliz. Como ninguém estava perto dele, havia a cadeira vazia. O vendedor afeminado bebe do copo do anfitrião. O outro velho bêbado dorme, queixo caído, boca aberta. "Mia piccirella", entoa a pleno pulmões, o tenor. Mas estou de saída.

19-03-2012 18:13:00

E somente a noite compreendia as suas palavras

E SOMENTE A NOITE COMPREENDIA AS SUAS PALAVRAS

 
VERLAINE
 
 
E SOMENTE A NOITE COMPREENDIA AS SUAS PALAVRAS
 
Rogel Samuel
 
 
- E tu, última sombra, demais não será para saltares do chão pedir e pelo bosque voares? Em ti já as figuras sutis se delineiam das finais invisíveis. O do rastro não é senão o de meu desatinado rumo.
- Aonde foram eles, aonde, aonde? Ao fim do mundo?
            «...et la nuit seule entendit leurs paroles...» - cantava Verlaine.
- Gruta de luz! Gruta de luz!
Lá fora, gigantes chamam para a luta.
- Que gigantes? Avança, prepara o combate, as grandes armas já ouço, que rolam, pesadas como bolas, de aço e no vácuo tempo de entrechocarem-se. Avança! O que está cumpra-se de imediato, escrito, o cortinado abra-se da cornija do luar,  que a fina roupagem de gaze a veste, que seja desnudado o limbo, vai. Vai, e a vida valerá teu grito de socorro. E a angústia tua nos gigantes clama para a luta?
            Mas nada. O bosque morto, daquele halo de leite impregnado, de lua e o seu silêncio como diáfano véu circulando como cobra que serpenteia entre as árvores...
«A lua branca, no bosque brilha. De cada ramo, parte uma voz: Oh, bem amada!»
Lá bem longe, sopram os gigantes grandes tubos e escudos dos ventos. Mas não aqui, nessa calma, massa lassitude plácida. A gruta se enviesa em si. Velam-se as paisagens em harmonia oblíqua. Desço a ladeira, saio da massa da paisagem, intocado. Passo. Em vão. Cruzam-me ruas, calçadas em diagonal, lusco-fusco, molhadas da madrugada, vitrificadas do nada, amassadas por grandes árvores escuras que se curvam no meio do vento como comadres assanhadas. As folhas escorregam pelo chão. Não é rua, mas o Bois de Vincennes, Paris. Os lencinhos das folhas das árvores caem. Flutuam, gélidos.
Um vulto cabisbaixo sob as formidáveis árvores passa, envolto em manto preto, desaparecendo mergulhado na neblina de luz da lua. É uma velha. Que prossegue. Ela fala baixinho e sozinha gesticula (balbuciando talvez suas coisas do passado, referindo-se a seres que já morreram, ou será uma prece repetida em murmúrios por aléias velhas ali mesmo onde talvez ela conhecera seu jovem amor, talvez).
Eu a sigo. Vejo-a esconder de mim umas notas velhas, amassadas, amarradas em nó de pano. Talvez pense que sou um ladrão (e talvez eu mesmo seja), do tempo, do passado, de histórias de narrativas... aquilo não é dinheiro, mas algo mais precioso, mais raro, as velhas cartas de amor, sobras daquela era curva de preto. Ela já não me vê, mas pressente, eu a sigo, como um assassino. Ela prossegue, figura embaçada, saída das brumas do seu desconhecido passado.
            Agora chove.
            Pois na face da paisagem (aquelas árvores encurvadas sob a chuva fina, aquelas aléias e o lago por cuja superfície lisa onde cai a gélida geada) aquela mulher prossegue já coberta pela sombrinha... eu estou perto daquele templo tibetano karma-kagiu, a velha meio torta, resmunga alguma coisa para um invisível ser a seu lado, apontando-o, acusando-o com o dedo indicador, em ameaça: «você me abandonou», parece gritar.
Mas, louca, um sorriso se esmalta, e depois a estranha gargalhada, sardônica, louca teatralidade, que se espalha, por todo o espaço do mundo daquele bosque se espraia... a vera, a realidade da horrível comédia... o sorriso...
            Oh, poucos puderam presenciar tão rara de face para o meio da noite escura, naquela facetada madrugada, pois a senhora parou, sem me ver, ria-se tragicamente para a capa do copa daquelas grandes árvores altas, falando aquelas incompreensíveis coisas naquele idioma histórico, desusado, arquivado e raro... e desapareceu como a sombra da neblina onde fiquei à espera de que os grandes gigantes aparecessem para a minha luta.
 
15-03-2012 23:52:00

Os numas

NEUZA MACHADO - OS NUMAS

 
Nestes termos reflexivo-interpretativos, a partir daí, surge uma pergunta: Castelnau descreveu miticamente os Numas Indomáveis (possivelmente, uma das tribos ainda hoje isoladas, desconhecidas) ou descreveu realmente mulheres índias belicosas, comparadas com as lendárias amazonas guerreiras da Grécia Antiga? A verdade é que, ao longo da busca teórico-histórica restrita à época assinalada pelo escritor, não distingui nenhuma informação quanto à possibilidade de existência desta aludida tribo indígena e o encontro da mesma com os aventureiros citados, entre as muitas nações silvícolas da localidade apontada, inclusive, em relação às tribos originárias dos Andes, tribos estas oriundas da dominação espanhola (anos iniciais da Era Moderna) fronteiriça à região amazônica brasileira (Peru e Bolívia). No entanto, sobre o mito de um grupo de índias brasileiras de ânimo aguerrido, também conhecidas como amazonas guerreiras (inseridas no título do romance), existem muitas informações mítico-históricas. Por conseguinte, depois das reflexões teórico-críticas, buscando solucionar o assunto, pude perceber uma ligação dos Numas invisíveis com o título do romance, uma vez que o escritor, por sua formação humanístico-literária, foi certamente um circunspecto estudioso da mitologia indígena de sua região de nascimento, incluso também o conhecimento de outros arcabouços míticos da humanidade. Por este aspecto, percebo o romance O Amante das Amazonas firmemente associado ao escritor-narrador, enquanto apreciador (amante intelectual) das heróicas narrativas indígenas, as quais povoaram o seu imaginário infanto-juvenil nos anos em que ali viveu, além de conhecedor inconteste das inúmeras formações mítico-religiosas tanto do Oriente quanto do Ocidente. Assim, pelo meu ponto de vista crítico-interpretativo, as “amazonas” do título seriam os próprios índios Numas (homens e mulheres indistintamente), criativamente desrealizados por seu apreciador ficcional. Entretanto, tal afirmação será reinterpretada, a seguir, quando, por tal causa, buscarei conhecimentos histórico-lendários esclarecedores a respeito do mito das gregas amazonas guerreiras, mito este plantado aqui no Brasil por exploradores estrangeiros, desde o início da colonização. Por via histórico-interpretativa, manifesta-se o conceito de que os míticos Numas foram formalizados ficcionalmente a partir de anteriores relatos lendário-familiares, intensificados pelas doutrinações totalitárias amazonenses, impositivas, e pelas intermitentes transmissões da literatura oral e escrita, pois, segundo a ficção aqui assinalada, “não ficavam visíveis, às claras, de frente, nítidos, senão de viés, difusamente entrevistos, só pressentidos na obliqüidade do olhar”.
“Não ficavam visíveis, às claras”. Como posso detectar o sentido oculto dos invisíveis e indomáveis Numas desta narrativa? Que são os Numas? Seriam eles, verdadeiramente e geograficamente, por via de acomodamento fonético-vocabular, os inconfundíveis Iauanauas (ou Yamináua ou Jaminaua ou Jamináwa) do Rio Gregório, detectados etnograficamente? Ou seriam o subgrupo isolado também chamados de Iauanauas, da cabeceira do Rio Acre, mas tribo diferente da população do Rio Gregório? Segundo dados governamentais, existe também um grupo indígena, peruano e boliviano, chamado Iauana, não reconhecido pelos governos de lá, mas incluído na relação de índios brasileiros do subconjunto Pano setentrional, isolado, dos Rios Jandiatuba e Jataí. No âmbito das suposições teórico-interpretativas, os Numas mítico-ficcionais poderiam provir dessas tribos isoladas, as quais viviam, e ainda vivem em menor número, em jurisdições estabelecidas na região interregno do Estado do Acre com o Departamento Ucayali, no Peru.
08-03-2012 17:14:00

Garoto se mata por ser chamado de gay

GAROTO SE MATA POR SOFRER HUMILHAÇÕES NA ESCOLA E A FOLHA CULPA DILMA

 

 



Fachada da escola de Rolliver de Jesus
Rolliver de Jesus, 12, se enforcou com cinto da mãe no dia 17 de fevereiro, em Vitória (ES). Ele não suportava mais o bullying que sofria na escola. “Eles [os alunos] o chamavam de gay, bicha, gordinho. Às vezes, ele ia embora chorando”, contou uma colega do menino.
Na sexta-feira antes do Carnaval, Rolliver foi feliz para a escola, mas acabou cercado por alguns alunos e humilhado. Os pais culpam a escola, pois tinham pedido transferência para os três filhos. A mãe Joselia Ferreira de Jesus explicou ao jornal “Folha de Vitória”: “Eu não tinha denunciado a situação desse meu filho, mas de outro. O Conselho Tutelar também sabia. Eu pedi o remanejamento dos meus três filhos, mas disponibilizaram vagas em escolas diferentes”.
O menino deixou uma carta pedindo desculpas aos pais pelo suicídio e se perguntando que não sabia por que era alvo de tantas humilhações.

02-03-2012 10:31:00

Memorial de Aires ou o Elogio da velhice

 

 

 
Zemaria Pinto


Memorial de Aires, publicado em 1908, foi o último livro de Machado de Assis. Naquele mesmo ano, o mais festejado autor brasileiro viria a falecer.

Machado, que já zombara dos vivos através das memórias póstumas de Brás Cubas, parece, no Memorial de Aires, olhar o mundo com um sorriso terno, embora cético, irônico e pragmático.

O Conselheiro Aires, um diplomata aposentado, viúvo, vive sozinho, mas tem uma vida social razoavelmente intensa na pequena cidade do Rio de Janeiro do final do século passado. Entrado nos sessenta anos, sua única preocupação parece ser preparar-se com serenidade para o inevitável descanso final. Aires não sofre com isso. Pelo contrário: pelas anotações de seu diário, observamos uma personagem fria, seca, que, sem ser amarga, contempla o mundo com ironia, tomando como seu lema um verso do romântico Shelley: eu não posso dar o que os homens chamam amor.

Aires só se expressa pelo intelecto, jamais pela emoção. Sua faina diária é observar, comparar e analisar, com fino humor, o pequeno universo que o cerca.

O Memorial de Aires é composto pelas anotações, ao longo de dois anos, desse cotidiano doméstico. Se fôssemos extrair-lhe um enredo, poderíamos tomar como centro não a história do Conselheiro, que nada de interessante lhe acontece, mas sim a de um casal seu amigo, Aguiar e Carmo.

Machado de Assis, por Baptistão.
Sem filhos, há muito tempo pegaram para criar um recém-nascido chamado Tristão, filho de uma amiga de D. Carmo. Tristão cresce e é tomado de volta por sua mãe, que o leva a morar em Portugal, deixando de dar notícias. Anos depois, o casal de velhos afeiçoa-se de Fidélia, uma jovem viúva a quem o pai renegara por não concordar com seu casamento. Fidélia torna-se, então, a nova filha do velho casal. A situação complica-se quando Tristão volta ao Brasil para uma breve estada com os padrinhos. Como não poderia deixar de ser, apaixona-se pela bela viúva Fidélia, herdeira de grande fortuna, retornando com ela para Portugal, onde seguirá carreira política. Os velhos Aguiar e Carmo, desolados, depois de conhecerem a felicidade junto aos dois filhos postiços, abandonam-se à sua solidão.

Aires conta essa história quase romântica com tintas pálidas, notas econômicas e uma linguagem despojada de ornamentos, como se a contasse a si mesmo, conversando com o papel em branco. Daí sua simplicidade e espontaneidade.

O Conselheiro Aires já fora personagem de destaque em Esaú e Jacó, o livro anterior de Machado de Assis, o que leva muitos críticos a ver no velho Conselheiro uma projeção do escritor. E talvez seja, pela estatura intelectual refinada e pelo humor tão próximos, além de outras similitudes como a viuvez e o fato de não ter filhos. D. Carmo, entretanto, o próprio Machado de Assis confessou-o a Mário de Alencar, é a sua esposa Carolina, morta quatro anos antes. D. Carmo é forte, bondosa e compreensiva, colocando o amor ao velho companheiro acima de tudo.

Alguém pode observar que a velhice é o ponto de convergência das frustrações humanas. É uma boa frase de efeito, menos para quem, como o Conselheiro Aires, ou como o velho Machado de Assis, souber envelhecer com a consciência de que este é um estágio inevitável, e que se deve chegar até ele vivendo-o plenamente nas suas limitações.

A terceira idade é tempo de novas descobertas, de novos prazeres, de novas paixões, o que é uma maneira de prolongar a vida: afinal, a morte não gosta de gente feliz.

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