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Entre-Textos

19.08.2008 | 11:48:20


Assis Brasil em bate-papo online

Autor de 114 livros, o escritor piauiense Assis Brasil, que atualmente passa temporada em Teresina, conversará sobre sua obra em bate-papo online, nesta quarta-feira, 20 de agosto, a partir das 21h30min.,  no site Entre-textos. Para participar do chat, o leitor de Assis acessa www.dilsonlages.com.br, precisamente, o link conversa de escritor, na hora programada.

Assis Brasil é autor do livro Beira rio beira vida, leitura obrigatória na terceira etapa do Programa de Ingresso Seriado à Universidade, da UFPI.

Leia textos sobre Assis Brasil:

http://www.dilsonlages.com.br/coluna_cont.asp?id=678

http://www.dilsonlages.com.br/coluna_cont.asp?id=366

Ouça entrevistas de Assis Brasil:

http://www.dilsonlages.com.br/podcast.asp?id=128

http://www.dilsonlages.com.br/podcast.asp?id=141

Veja os livros publicados por Assis Brasil

http://www.dilsonlages.com.br/poetasbiografia.asp?id=6

 

 

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18.08.2008 | 01:53:33


A chuva tardia

Rogel Samuel

Leio mais um poema de Dogen, poeta japonês, nascido em Kyoto (1200-1253) e fundador da
escola Soto Zen. Mas ele é, antes de tudo, um grande poeta, que é o que nos interessa
aqui. Ele era um aristocrata que perdeu o pai e a mãe, abandonou tudo, tornou-se monge
e viajou em busca de um mestre que lhe respondesse às suas inquietações. Foi até a China,
uma viagem perigosa na época.


Alegre neste retiro da montanha
contudo ainda no sentimento de melancolia
estudando o Sutra do Lótus diariamente
Pratico meditação concentrada;
O que fazem o amor e o ódio
Quando estou aqui sozinho?
Escuta o som da chuva tardia nesta noite do outono.

 


O poema fala dos contrastes da mente e do corpo humano, alegre e triste, amando e odiando.
Mesmo isolado no retiro da montanha, aquelas contradições estavam ali presentes. E contradição
significa inquietação, desequilíbrio, que ele traz até ali. O Sutra do Lótus é "Sutra dos Infinitos Significados", não estava acalmando seu corpo e mente, porque "O acesso a esta sabedoria é difícil de compreender e difícil de transpor".

A "solução" poética desta dúvida foi escutar o som da chuva tardia.

 

Talvez aí nasceu o olho.

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16.08.2008 | 21:07:33


A praça Caymmi

Rogel Samuel

Existe uma área no início da praia da Itapoã chamada Praça Caymmi. Naquele tempo, era uma área deserta, perto da lagoa e do mar. Jorge amado não morava longe dali. Lugar mágico, deserto, com umas barracas onde se podia beber água de coco. O vento que vinha do mar trazia versos de Caymmi. Eu estive lá, em 1973, por alguns dias. Estava hospedado no Pituba,
num hotelzinho barato frente para o mar. Tenho fotos. Românticas. Havia gente acampando
por ali, em frente ao mar selvagem, como nas “Palavras ao mar”, de Vicente de Carvalho:

 “Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.”

 

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15.08.2008 | 17:39:48


A pegada das aves

Rogel Samuel


Escreceu DOGEN (1200-1253):


As aves aquáticas
vagam aqui e acolá
sem deixar pegadas
mas suas veredas nunca as esquecem.


O que ele não devia ver era o caminho das aves no ar, seu rastro, suas pegadas, o destino de
seu vagar. Mas eram as veredas do ar que não se esqueciam das árvores, os caminhos tidos,
percorridos. Não há pegadas nas águas. Nem no ar. O vagar das aves. No ar. A mente livre
não deixa rastro, não tem culpa nem ganho. Nem lugar de morada.

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14.08.2008 | 06:32:50


O guindaste do mundo

Rogel Samuel

Um poema de Dogen (1200 - 1253) diz assim:

A que devo comparar o mundo?
O luar
 refletido nas gotas de orvalho,
agitadas da conta de um guindaste.

Isto se lê em “Zen Poetry of Dogen”, traduzido para o inglês por Steven Heine. Para Dogen o mundo é uma gota de luar, ou melhor, são gotas de orvalho, estão nas gotas de orvalho penduradas nas grandezas de um guindaste, arrastadas por esse enorme guindaste poderoso e forte que é o destino do mundo, o peso do mundo, a agitar do mundo, a pressa do mundo, seu trânsito, suas guerras, suas contas, seus dinheiros, seus valores, suas fortunas, as empresas, os exércitos, as nações, o grande esforço de suas lutas e trabalhos, tudo, tudo não vale mais, para Dogen, do que o luar refletido dentro das gotas de orvalho agitadas pelo mover do braço desse enorme guindaste que move o mundo. 

 

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13.08.2008 | 06:57:09


O que não é feito de nada

Rogel Samuel

Naropa (1016-1100) é um famoso poeta indiano que escreveu algumas das mais belas e
filosóficas canções, reunidas em "The Songs of Naropa: Commentaries on songs of
Realization", translated by Khenchen Thrangu Rinpoche e Erik Pema Kunsang. Traduzo sua
"Súmula de Mahamuda", que diz:

Homenagem para o estado de grandes felicidades!
Sobre o que é chamado Mahamudra
Todas as coisas são sua própria mente.
Ver objetos como externos é um conceito errado;
Como um sonho, eles são vazios de concretude.
Esta mente, assim como é, é um mero movimento de atenção
Que não tem nenhuma ego-natureza, somente sendo uma rajada de vento.
Vazio de identidade, como o espaço.
Todas as coisas, como o espaço, são iguais.
Porque o 'Mahamudra'
Não é uma entidade que pode ser mostrada.
Nele está a ipseidade da mente
Que é o próprio estado de Mahamudra.
E não é algo a ser corrigido nem transformado,
Mas quando qualquer um vê e percebe sua natureza
Tudo que aparece e existe é Mahamudra,
O grande Dharmakaya que tudo permeia.
Naturalmente e sem inventar nada, permite simplesmente ser,
Este inimaginável Dharmakaya,
Deixando isto ser sem buscar nada é seu treinamento meditativo.
Pois meditar enquanto busca é ilusão mental.
Da mesma maneira que com o espaço e uma exibição mágica,
Nem cultivando nem não cultivando
Como pode você estar separado e não separado!
Isto é a compreensão de um iogue.
Todas as ações boas e ações prejudiciais
Dissolvem-se simplesmente por conhecer esta natureza.
As emoções são sua grande sabedoria.
Como uma selva em fogo, elas são ajudantes do iogue.
Como podem ficar ou podem ir?
Que meditação é fugir para um eremitério?
Sem entender isto, todos os possíveis meios
Nunca trarão mais que liberação temporária.
Quando entender esta natureza, o que vai prender você?
Enquanto sendo atento de sua continuidade,
Não há nem um composto nem um estado não composto
Nem um ser cultivado ou corrigido por um remédio.
Não é feito de nada
A experiência ego-liberada é dharmadhatu.
Pensar na ego-liberação é grande sabedoria,
Igualdade não-dual é dharmakaya.
Como o fluxo contínuo de um grande rio,
Tudo o que que você faz é significante,
Este é o estado desperto eterno,
As grandes felicidades não deixam nenhum lugar para o samasara.
Todas as coisas estão vazias de suas próprias identidades.
Este conceito fixo em vacuidade se dissolve em si mesmo.
Livre de conceito, não segurando nada em mente,
Está em si mesmo no caminho dos Buddhas.
Para o mais afortunado,
Eu escrevi essas palavras concisas de um conselho sincero.
Por isto, possa todo ser sensível
Ser estabelecido em Mahamudra.

 

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12.08.2008 | 04:04:03


A vida da engrenagens do sol

Rogel Samuel

As engrenagens representam o princípio da vida do mundo, quando uma coisa puxa outra, um
fato arrasta o outro, num contínio fluxo de interdependência, como aquilo que se engrena
no despertar do dia. Um clássico poema, "Tecendo a manhã", de João Cabral de Melo Neto,
sabe dizer o de que falo: a vida da engrenagem que nos envolve e enreda na sua trama
causal. Um grito aqui faz nascer o mundo todo que se levanta, nordestina, luminosa,
cabralina.

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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11.08.2008 | 08:42:36


Rua dos Rouxinóis

ROGEL SAMUEL

Pindamonhangaba é uma pacata cidade do interior de São Paulo. Eu conheci, há muitos anos. Lá existe uma Rua dos Rouxinóis, nome poético, digno do romantismo, que é um dos mais fecundos períodos da literatura brasileira. Pois nesta rua daquela cidade um menino de 15 anos enforcou com uma mangueira outro de 11 anos por causa de uma pipa dentro da Escola. A notícia diz que o maior é usuário de droga, no que não acredito, tão novo o garoto. Toda droga é cara. Depois do crime, o pequeno assassino foi para casa ver TV. Diz a polícia que não demonstrou arrependimento: mas como? Será que ele mesmo sabia o que estava
fazendo? A "explicação" (ó céus??!!) que o repórter não viu nem poderia entender está no "ver TV". O pequeno assassino deve ter imitado um desses filmes americanos que se vê diariamente na TV e que deveriam ser proibidos a menores de 18 anos. Ver sexo explícito é proibido, mas um facínora matador é livre.

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10.08.2008 | 07:54:06


Chuva

Rogel Samuel

Chuva fina, mas continua. Faz um pouco de frio. O mundo lá fora nos dá para sentir a sensação de abrigo. Na TV a pianista portuguesa Maria João Pires toca Drei Romanzen Op. 28 de Schumann. Li que ela reside no Brasil, mas pouco toca por aqui que eu saiba. Parece que está em Salvador. Ela é excelente. No apartamento térreo onde vivo há mais de 10 anos morava uma pianista, cujo nome não quero dizer. Talvez por isso não consigo sair daqui, que não cabe os meus livros. Aqueles sons ainda estão nas paredes. O piano não existe mais. Há os sons. Nas paredes. A chuva está fraca. Talvez poderei sair.

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09.08.2008 | 08:54:32


China

Rogel Samuel

Há poucos dias o ex-ministro Reis Veloso questionava se um país como a China, com um bilhão
e meio de habitantes, poderia ser uma democracia. Difícil. A magnífica abertura das Olimpíadas
mostrou muito bem isso: ali estava a velha China imperial. Os símbolos expostos revelavam
o desejo, que é comum a todo império, de tudo dominar, de tudo abranger, de ser o império
universal. O estádio belíssimo era um ninho ou um cercado de aço? O Estado moderno, apesar
da globalização, como empresa, sempre vê no seu vizinho um perigoso concorrente. Todo Estado
sempre se prepara para a guerra. A guerra é a mãe do Estado. A idéia de dissolução das
nacionalidades e do nacionalismo nasceu nas internacionais socialistas, que viram isto
desde 1848. Mas o projeto de dissolução dos Estados nacionais, e do nacionalismo, hoje,
ameaça com sinais de um Império Universal.
O impasse do militarismo moderno reside na organização de um império que se tem de
consolidar econômica e universalmente. Se o problema do Estado é a existência de outro
Estado nas suas fronteiras, o problema do Império é a existência de outro Império ainda
que a existência potencial militar da China ainda não seja uma "ameaça".
 

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08.08.2008 | 06:39:12


O pior de todos os dias

Rogel Samuel

Ontem assisti ao pior dia da história da imprensa no Brasil: todos os jornais proclamaram uma mentira, a de que os candidatos com “ficha suja” na justiça estão liberados para eleger-se. Mentira. Os verdadeiros “ficha sujas”, ou seja, os condenados pela justiça são inelegíveis. O que a imprensa queria era que a mera acusação fosse suficiente para condenação do acusado, como nas ditaduras nazi-fascistas, quando bastava a pessoa ser acusada de “comunista” ou “judia” podia ser presa, torturada ou morta, sem direito de defesa. O caráter autoritário da media apareceu, escancarado. Nunca se viu um desmascaramento igual. O magnífico parecer, que acompanhei pela TV, de 90 páginas, do ministro Celso de Mello foi brilhante. Um monumento jurídico que deveria ser de leitura obrigatória nas escolas. Ele fez a defesa da Democracia e das liberdades individuais. Na Democracia dos nos países civilizados todos os indivíduos são inocentes, até prova em contrário. E quem acusa tem de provar que o acusado é culpado. Ao contrário, nos regimes autoritários, todos são culpados, mesmo aqueles que foram acusados por seus inimigos, e os acusados têm de provar que são inocentes.
Mas o que a grande imprensa queria destruir eram alguns alvos certos. Mas isto já é outra história.

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07.08.2008 | 08:59:14


Andando para dentro do mar

ROGEL SAMUEL

Cheio de indagações irrespondíveis na cabeça ponho-me a ler o poema de Alfonsina Storni, na tradução de Oswaldo Orico:

               Tu me queres alva,
               me queres de espuma,
               me queres de nácar,
               que seja açucena
               mais casta que todas.
               De perfume suave;
               corola fechada.
               Nem raio de lua
               filtrado me toque.
               Nem a margarida
               seja minha irmã.
               Tu me queres nívea,
               Tu me queres branca,
               tu me queres casta.

               Tu, que as taças todas
               já tiveste à mão.
               Os lábios corados
               de frutos e mel.
               Tu, que no banquete
               coberto de pâmpanos,
               as carnes gastaste
               festejando a Baco.
               Tu, que nos jardins
               escuros do engano,
               lascivo e vermelho
               correste no abismo.

               Ó tu, que o esqueleto,
               não sei por que graça
               ou por que milagre
               conservas intacto,
               só me queres branca,
               (que Deus te perdoe!)
               só me queres casta,
               (que Deus te perdoe!)
               só me queres alva.

               Foge para o bosque,
               vai para a montanha,
               purifica a boca,
               vive na humildade.
               Segura com as mãos
               a terra orvalhada.
               Alimenta o corpo
               de raiz amarga.

               Bebe a água das rochas,
               dorme sobre a geada,
               renova os tecidos
               com salitre e água.
               Conversa com os pássaros,
               lava-te na aurora.
               E já quando as carnes
               ao corpo te voltem,
               e quando hajas posto
               nas carnes a alma
               que, pelas alcovas
               ficou enredada.
               Então, homem puro,
               pretende-me nívea,
               pretende-me branca,
               pretende-me casta. 

Hoje quase não se ouve falar de Oswaldo Orico (1900 — 1981), escritor paraense, diplomata, poeta, contista, romancista, biógrafo, da Academia Brasileira de Letras, autor de mais de 20 livros, pai de Vanja Orico. Era bom escritor, muito lido em sua época. Sua tradução deu numa obra prima da lírica portuguesa, como uma leve canção.

Alfonsina Storni nasceu na Europa mas foi com os pais para a Argentina em 1896, onde foi costureira, operária, atriz e professora. Dizem que sabendo que estava com um câncer no seio em 1938 suicidou-se. Antes de se suicidar, escreveu o soneto “Voy a Dormir” e falam que se matou andando
para dentro do mar, como na canção "Alfonsina y el mar", de Mercedes Sosa. Seu corpo foi encontrado no mar no dia 25 de outubro de 1938. Alfonsina tinha 46 anos.

 


 

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06.08.2008 | 07:20:53


No meio da noite

ROGEL SAMUEL

 

No meio da noite sou acordado por minha M. que mora em Los Angeles dizendo aos prantos que sua filha que mora na França vai perder o bebê. A comunicação moderna uniu o sofrimento das pessoas. No meio da noite não tive idéia para nada, só lhe disse "fique calma". Agora, desperto, lembro-me de ter lido em Bloch que "a felicidade nunca chega imediatamente". Mas, digo, a infelicidade pode ser súbita, inesperada. Vivemos diariamente sem saber o amanhã. Por isso é melhor esperar que aconteçam as nossas coisas mais amadas. "A essência não é o que foi, ao contrário: a essência mesma do mundo situa-se na linha de frente". Mas temos conosco mesmos um compromisso de honra, um compromisso sagrado: temos de manter-nos felizes, otimistas, aconteça o que acontecer. Do contrário entraremos no abismo negro da depressão. Que não resolve.

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05.08.2008 | 06:21:18


A leitura de Neuza Machado

ROGEL SAMUEL

 


O início do capítulo quarto do nosso “O amante das amazonas” ou “PAXIÚBA” diz assim :


“E CHEGA que alguém diz: “Bons dias” (a voz como era?) - sim, que quem se introduz nesta estória e então fala é o enorme bugre caboclo Paxiúba, naquela época com cerca de dezenove anos, mas já bem dotado de grande, de fome, de alto, de um metro e noventa e dois de altura, ah, bem me lembro inteiro dele sim, a gente fica velho mas, antes de morrer, a memória a gente aviva, e nela vive, até o tampo do tempo nos apagar, gatão lustroso que passa sua língua, nada, no para, o esquecido, tal que logo desaparecemos que vai ser como se nem nunca tivéssemos existido, nem mesmo como personagem de ficção que é o que é. Mas o olho burro tudo vê, e registra - mosca da vida sobre a rosa de sangue e da conversa vã. Pois sim. Que diz-que Paxiúba era filho de um negro barbadiano da Madeira-Mamoré com uma índia Caxinauá que não conheci, e se tomou lendário e eterno - ele-mesmo se aproximando assim, remando silencioso e feroz pela face da manhã, no luxo de frente do porto do Laurie Costa, que ficava na margem esquerda do Igarapé do Inferno, submerso e distribuído pelo prestigioso vale.
“Pois se aproximava somente para dizer: “Bons dias”, e assim se referia a uma certa e acocorada Zilda, esposa do Laurie Costa, lavadeira das roupas, agachada sobre a prancha lisa, lixiviada, de Itaúba, tabuão de sabão, - ela nem o tinha visto e pressentido em suas costas feito um jacaré inteiro estirado imenso - Paxiúba na montaria, espetáculo bom de ver, mas literário, mas enorme de belo, que já o conheci assim, escuro caboclo e tigre, grandão, desenvolto, olho de cobra, de bicho, poderosamente selvagem, no vivo, no ensolarado do olho amarelo, luminoso, feroz, sobre musculatura nobre de dar inveja às estátuas do Louvre, erguida cabeça sobre o pescoço grosso, sólido, de muito viva, e guerreira, assassina, arisca subjetividade - era assim que ele vinha, cínico, atravessador, a ninguém poupando ou aturando, nem a juiz, como se dissesse: “te conheço: sei quem és” - o certo da culpa, gesto indecente e ameaçador, de assustar policial - seu poder vinha do cheiro de camaru que arrancava da vítima fácil confissão antecipada, sim, enfraquecia e anestesiava a gente, nos dando um sono sob seu pulso, que se sabia dele em quem nunca se pôde confiar - impondo mole aquilo que o sustentava nos seus sangrentos desígnios e poderes, saberes e prazeres, o que encontrava no fundo de nós-mesmos, arrancados e submetidos à acessibilidade, ah, o bruto, mas fundamental, da impressão fugidia para a certeza, correta e culposa, que coage, que oprime, na lógica da nossa tenebrosa região infantil, a revelar-se, impelida, à força hipnótica, para fora, para novas submissões, e sorrisos, se infiltrando nas fendas do poder de onde imperava, ardiloso e interno, na interseção vazia e na interdição da resposta, na inversão das forças a ré, malandragem desmascarava única nobreza, qualquer dignidade sobrevivente: “Diga sua verdade” - era a linguagem da ordem de seus olhos no risco do seu sorriso sensual e perverso, sublinhado por esboço de pecado que nos fotografava, que nos dizia, no espelho avaliado das baixezas. Paxiúba era bom de não se encontrar de repente, na estrada deserta. Exigia prudência, medo e prática muda da obscura familiaridade com a ternura se via na transmissão de seu segredo. Em uma palavra: explícito. Quando se retirava, a gente se persignava. Porque se efetivava guerreiro de épocas irregulares, de tempo inverso, remotíssimos mecanismos ardilosos, das possibilidades do corpo, privilegiadas, sexuais, capazes de muito realizar, sedimentando o músculo vivo e assumido. Paxiúba, emblema da Amazônia amontoada e brutal, sombria, desconhecida, nociva. E a montaria, transpostos os espaços da vigilância, esbarrava nela, na prancha do cais onde Zilda lavava roupa branca e pura, iluminada, a espuma saindo e se indo assim de sabões e bolhas de vidro, se esparzindo na bordadura branca da superfície do rio espelhado de sol e na purificação religiosa da água.”

A leitura de Neuza Machado (“ O Fogo da Labareda da Serpente.: sobre O Amante das Amazonas de Rogel Samuel”. Rio de Janeiro: N. Machado, 2008. 105p.) se inicia desse modo:

“Manifestado à moda dos lendários heróis de misteriosas histórias de cerimônias e cultos diversos, Paxiúba é a encarnação mítico-ficcional de antigos guardiões extravitais (de qualquer arcabouço esotérico da humanidade, humanidade esta quase sempre conduzida por elementos das forças sobrenaturais), os quais povoaram, ao longo do tempo, a poderosa imaginação reduplicada, sintagmática, do mundo dos conceitos veneráveis. Paxiúba se configura como o símbolo das forças da natureza selvagem do Amazonas (no caso, o estrato mítico-substancial da sociedade indígena amazonense), e, acima de sua aparência exterior, a matéria épica se faz presente no relato ficcional, realçando o prestígio prosopopaico de sua natureza humana.
“Se me encontro aqui como apreciadora de obra ficcional da pós-modernidade, envolta em minhas próprias teorizações analítico-fenomenológicas sobre um assunto no qual eu mesma me alterco constantemente, confirmo que em O Amante das Amazonas há um altíssimo grau de entropia no sistema de narração (ausência da ordem narrativa à moda tradicional). Para explicitar o seu personagem mítico-ficcional Paxiúba, o criador pós-modernista de Segunda Geração se vale dos enclaves narrativos, tão do gosto dos escritores pós-modernos/pós-modernistas da Primeira Geração. Entretanto, enquanto autor-criador de um novo direcionamento estético-ficcional, mais de acordo com a vivência do homem do século XXI, objetivou abandonar o estereótipo (lugar comum) do personagem reificado (inacreditável, fantasioso) da primeira fase, procurando descortiná-lo por meio de um olhar diferenciado (o ser mítico a se transformar em humano), circunscrito a insólitos acontecimentos dinamizados. (Preciso esclarecer que os escritores do final do século XX, dos anos 80 para cá, perceberam as qualidades intrínsecas das regras sócio-culturais do século XXI, e, por sua vez, como participante ativo daquele momento, o narrador rogeliano enxergou criativamente a mudança que já se avizinhava).

“A entropia narrativa, no século XX, surgiu das pioneiras modalidades sócio-culturais capitalistas, intermediárias de uma novíssima ciência, baseada em um conjunto de métodos científicos, de novas modalidades existenciais que visavam resolver os problemas do homem pós-moderno. Fundamentado-se em normas predominantemente científicas e em transmissões de notícias generalizadas oferecidas pelos meios de comunicação em evidência naquele momento (rádio, televisão e cinema), as mensagens saíam de uma realidade cotidiana, poderosa, mas que já chegavam descaracterizadas aos destinatários, propiciando espetáculos insólitos. Assim, a técnica discursiva da propaganda impôs suas diretrizes no universo ficcional da pós-modernidade, naquela Primeira Geração de escritores ficcionistas, obrigando-os a “criar” seus textos ─ sintagmáticos ou paradigmáticos ─ pelo ponto de vista de uma realidade liquidificada, reduzida a diversas cópias (ou colcha-de-retalhos, ou patchwork quilt) de conceitos vitais diversificados e entrelaçados, conceitos esses vistos pelos críticos da literatura do final do século XX como simulacros de uma realidade há muito despojada de suas características fundamentais.”

(Neuza Machado é doutora em letras e lecionou na UERJ, na Universidade do Amazonas e outras instituições. Atualmente trabalha na Universidade Castelo Branco. Publicou vários livros dentre os quais "O narrador toma a vez").

Você encontra na sua livraria: peça pela Editora Itatiaia. (Click na capa para mais informações):

   

 

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04.08.2008 | 04:56:07


As estrelas

ROGEL SAMUEL

As onças estão em extinção. Famosas, na minha época, porque atacavam os rebanhos. Só existiam as negras no Norte do Amazonas. As "pintadas" estavam em toda parte, perto de Manaus. Meu pai., que viajou 40 anos pelo Amazonas, encontrou uma, ele descendo um igarapé estreito, motor quase em silêncio, sobre um tronco de árvore caída, ao sol, estava ela. Deu marcha a ré. O animal voltou-se, soberano. Olhou com desprezo, voou como um pássaro, atravessou a margem. Conheci um "matador" de onças, velhote magro, vivia daquilo, no Careiro, perto de Manaus. Amarrava um porco, subia na árvore, ficava na espera. Nesta nossa época digital estou relendo Alencar e falando de onça. Alencar é a Mata Atlântica. Alencar organizou a estória como a história do Brasil, que sai de sua obra inteira. Ele descreve a floresta, que conheceu bem. Veio, por terra, do Ceará ao Rio de Janeiro. Naquela época, uma epopéia, uma caminhada digna da coluna Prestes. Mesmo hoje. O Amazonas era um lugar no mundo tão inexplorado quanto Marte, que deixou de ser uma estrela para virar um realidade. Vamos deixar de observar as estrelas como um sonho. Agora elas serào "uma antecipação do que ainda não veio a ser" (Bloch).
 

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03.08.2008 | 09:00:55


Alencar

ROGEL SAMUEL

Estou relendo "O guarani". O livro começa por um "fio d'água". Alencar seduz pela leveza. Logo aparece uma cena "impossível": Peri caça uma onça preta com as próprias mãos. Perto de Manaus vivia um caboclo, caseiro meio índio, forte como touro selvagem. Perto dia uma jaguatirica, também chamada "gato do mato", do tamanho de um cão, caiu na armadilha para paca. O animal ficou entrelaçado de cordas pelo corpo, mal podia mover-se, mas arrancou-se dali. Ele ouviu aquilo, foi lá com a filha pequena. A onça conseguiu pular sobre a menina. Mas o animal estava de costas, entrançado de cordas. Ele o pegou para estrangular. Quando chegaram outros homens a onça estava ainda viva e, com as unhas da única pata livre, cortava o inimigo que quase morreu. Portanto, pegar um onça preta com as próprias mãos é uma das licenças poéticas do romantismo do grande mestre.
 

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02.08.2008 | 06:53:23


Variação sobre o poema

ROGEL SAMUEL

O poema XI  do Tao Te Ching de Lao Tse recebeu várias traduções em português, geralmente vindas de outras traduções de alguma língua européia. A de Emmanuel Carneiro Leão diz:
Trinta raios rodeiam um eixo 
mas é onde o raio não raia 
que roda a roda.
Vaza-se a vasa e se faz o vaso. 
Mas é o vazio
que perfaz a vasilha.
Casam-se as paredes e se encaixam portas 
mas é onde não há nada
que se está em casa. 
Falam-se palavras 
e se apalavram falas, 
mas é no silêncio 
que mora a linguagem. 
É o Ser que faz a utilidade. 
Mas é o Nada que dá sentido.
 
(A de Edmundo Montagne, traduzida em português: )
Trinta raios se juntam no cubo; 
mas é o não existente entre eles o que 
realiza a efetividade da roda.
De terra se fazem as vasilhas; 
porém o não existente do meio realiza a 
efetividade da vasilha.
Cortando portas e janelas se faz a casa; 
porém esse não existente entre seus muros 
realiza a efetividade da casa.
- Assim, pois, em geral 
Do material depende a Utilidade; 
E do Imaterial depende a Efetividade.

(A versão de Norberto de Paula Lima é assim:)
Trinta raios convergem, no círculo de uma roda
E pelo espaço que há entre eles
Origina-se a utilidade da roda
A argila é trabalhada na forma de vasos 
E no vazio origina-se a utilidade deles
Abrem-se portas e janelas nas paredes da casa
E pelos vazios é que podemos utilizá-la
Assim, da não-existência vem a utilidade, e
da existência, a posse.

( A tradução de Wu Jyh Cherng, direta do original:)
Trinta raios convergem ao vazio do centro da roda
Através dessa não-existência
Existe a utilidade do veículo
A argila é trabalhada na forma de vasos
Através da não-existência
Existe a utilidade do objeto
Portas e janelas são abertas na construção da casa
Através da não-existência
Existe a utilidade da casa
Assim, da existência vem o valor 
E da não-existência, a utilidade


(Mas não acredito que “utilidade” seja o sentido do Tao. O Tao não tem utilidade) .


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01.08.2008 | 06:25:11


Morre Pedro Paulo Moreira

Rogel Samuel

O último grande editor brasileiro faleceu há um mês. Pedro Paulo Moreira, editor há 50 anos, era dono da Itatiaia e construiu uma grande empresa vendendo livro. Todos os outros de sua geração faliram, quebraram, desistiram. Todos: José Olympio, Caio Prado, Ênio Silveira.  Menos ele, que começou vendendo as coleções de José Olympio de porta em porta. Todo escritor pensa que os editores ganham rios de dinheiro com seu trabalho. Enganam-se: publicar um livro é um risco, nunca se sabe se o livro vai vender, e do preço de capa ganha 10% o escritor, o distribuidor, o livreiro, a gráfica, o capista, o revisor etc. O preço do papel é cotado em dólar por um mercado internacional. A media também é muito cara, a propaganda, o prestígio do livro. Livro é loteria: Você pode publicar uma obra-prima e não vender nada, ou enriquecer vendendo uma obra medíocre e passageira. O mercado de livro é muito sensível às crises econômicas. O leitor só compra livro quando o dinheiro sobra (exceto o intelectual). Por isso, quando penso em Pedro Paulo vejo um vencedor da tempestade. Ele era dono de várias editoras além da Itatiaia, como a Martins, a Briguiet, a Garnier, a Villa Rica, etc. Tinha cerca de 5 mil títulos no seu catálogo. Pedro Paulo faleceu aos 82 anos, vítima de um desastre de automóvel numa das estradas da sua querida Minas Gerais. Era o último grande editor brasileiro vivo.
Editou o nosso "O amante das amazonas". O seu catálogo está em:

http://www.villarica.com.br/

Livros de Rogel Samuel que você encontra na sua livraria: peça pela Editora Itatiaia (O amante das amazonas) e Vozes (Novo manual de teoria literária).
(Click nas capas para mais informações):
   

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