Aos intelectuais de vitrine e de merda
Durante a noite, ele respondeu tudo como se fosse genial. Sabe falar da Rússia antiga, da China moderna, de Bukowisk e Machado, de Boch. Ele entende também de arte circense, arte moderna, conceitual, dadaísta, poética, surrealista, política, ritmos, cores, formas e é ateu. Ele diz que não tem rótulos para ele mesmo. Diz, achando, não sabendo, que é original. E toda vez que fala, fala altivo, deixando menor o outro. Ele, enciclopédia, tem resposta pra tudo. Parece um robozinho. Ele é artista. Escreve alguns poemas, conversa sobre revoluções, músico, uma vez e outra, mago e mágico, atleta, de esquerda, culto, com frases prontas, e fingindo ser a favor da carapuça, dá opiniões fortes:
_Eles são ignorantes. Não conseguem fazer um projeto que beneficie e ajude a todos.
Ele bronca no discurso e fura na ação. Não ajuda ninguém. Se um dia você precisar de uma carona, porque perdeu o braço em um acidente de carro, ele não dará. Porque se um dia você precisar de uma carona dele, será porque você perdeu o braço. Com ele é assim, drástico. Horas faz-se de céu. Outrora de Lúcifer, anjo torto. Mal ele sabe que é clichê ser torto. “Não posso melar o carro de minha mãe”. Desculpa-se por não dar a carona. Ele bebe, fuma, mostra-se inteligente para todas as mulheres, para os homens, mostra-se melhor, ele come, bebe mais, fuma dos outros, bebe dos outros, ele passa a noite falando tudo em frases de efeito e com humor negro. Fuma maconha, bebe vinho, ele acha cult, apesar de não gostar dessa palavra. Também é viciado, para mim. Nem um nem outro, pra ele. Ele não se ilude: na perfeição não existe defeito. Por isso, nada que seja sim para você é sim para ele, o intelectual, factual, homem, ele, ela. Ele sabe falar sobre tudo, fala baixinho, comedido. É humilde. Sim, humilde. Mas só pra ele mesmo. Ele diz, ou melhor, ele finge:
_Eu não sou bom em nada.
Diz assim, com um olhar de quem te xinga de merda, de nada. Ele é o tipo de intelectual que se diz poeta-artista-escritor-músico-pensador-filósofo-equelibrado-diferente-original-antônimo-intrínseco-mais rápido que uma bala-mais forte que o dinheiro-perfeito, que abomino.
Em casa, quando ele chega, é interpelado:
_Filho, você botou a gasolina que pedi, ou a usou para outro benefício?
Ele não a responde.
_Você já tem barba na cara, menino, vamos crescer.
Ele sorri. Quem o interpelou não vê.
Ele bate a porta e vai se cristalizar na prima eternidade do seu quarto.
Segunda-feira, 11 da manhã, ele acorda. Assiste TV na sala, almoça meio dia e, com o livro de Rimbaud, volta ao quarto a decorar versos olhando-se no espelho.
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ASS: José Augusto Sampaio – Redator Publicitário, Escritor e louco pela vida.
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Edição de Texto: Isana Maria