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Dias Normais
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01-02-2010 23:30:00

Leia 'Bons vizinhos bons amigos bons vinhos' de José Augusto Sampaio

Bons vizinhos bons amigos bons vinhos
 
O vizinho do maior extremo.  Tome esse extremo como distância. Imagino que tenha entendido assim, afinal você também deve ser um dos meus vizinhos. Esse vizinho, o mais distante, é o que mais me respeita. Educado, ele sempre cumprimenta:
_Boa noite.
_Para você também.
Um belo dia, quando eu vinha chegando do trabalho, ele convida:
_Vinho?
Como recusar. Amo vinho. Foram 9 dias bebendo, três por conta da casa, seis por conta da visita. A mulher dele é apetitosa, vale a bebida. E mais, ele passou esses nove dias falando mal de todos os cidadãos que ele conhece. A mulher dele, os filhos e até dele mesmo. Mas eu, para ele, sou um marajá. Uma pessoa abençoada. Mereço a vida que tenho. Como se diz aqui no Brasil: sou homem trabalhador. Dizendo ele.
Um outro vizinho, um mais antigo, cabeludo, barbudo, rippie, gosta de dar carona, olha com gosto para minha mulher, conveniente, come a mulher dele, quer outra, outra que acredite nesse ideal falido de rippie. Ele mesmo não acredita. A mulher dele finge que acredita. Não sei qual é a dela, se gosta de gozar na caceta dele ou espera que este rippie assuma a herança da família um dia. A família dele tem herança? Este vizinho adora ir a minha casa. Me mostra suas esculturas, suas marcas, feitos, sonhos, glamour. Ele dança alternativamente bem. A coroa agora está na cabeça dele e seu trono é meu sofá. Ele fuma um cigarro em meu sofá, olha entre as pernas de minha mulher e me pede vinho. Bom filho da puta. Bons vizinhos bons amigos bons vinhos. Mas aqui em casa o vinho é barato! Afirmo. Ele sorri, e como um rippie, aceita de bom grado. Cuidado pra não manchar meu sofá. Penso. Todo bom esse moço. Diz minha mulher à mulher dele. Como ele engana bem. Penso eu. Mas quem engana a si próprio é o maior enganador. Outro vizinho, o mais insuportável, é daqueles que levanta o ouvido esperando um elogio. E afina o queixo se você o critica. Quando você o critica a sós, ele sorri placidamente, quando falo a verdade com uma critica: “uma merda essa letra”, na frente dos outros, ele reage como um intelectual, culto. Mas para mim parece mais um cu soltando gazes. Esse vizinho toca violão. Faz esculturas, tem um carro, come outras vizinhas, na minha frente elogia-me e quer ser elogiado, por trás, fala mal e não quer ver-me pintado. Mas infelizmente moramos na mesma rua e, por obra do destino, nos vemos sempre.  
Vizinhos valem a pena, mas não quando dividimos o muro. Quando não são vizinhos. Mas quando são desses tipos “amigos vizinhos”, são câncer. Se acham donos de sua casa. Donos de seu sofá. Donos de sua esposa e querem dar conta de tudo que faça mal a ela. Os vizinhos amigos são os mais perigosos. A intimidade demais acaba com qualquer relação.
Uma vizinha bate à minha porta. Quer um conselho. Bom, eu dou, ela não me dá. Não serve. Outro vizinho quer montar um grande negócio, não sai da poesia. Mas vale, sou poeta quando há cachaça. Mais vizinhos: o Truta me desconhece, mas me olha toda vez que passo. Não sei se é tesão ou inveja. A M... fala, fala, fala, fala, fala, e eu deixo falar, ela tem um coração bom e belas coxas. O D...desperta-me amor e ódio. Mas, para ele, tanto faz.
 
N’outro dia, a rua acorda de manhã e todos cantam juntos:
Bom dia, meus queridos, amigos e bons vizinhos. Domingo a gente marca um churrasquinho. De tarde nossos filhos vão ao parquinho, enquanto nós dividimos este ar azul e amarelo com a amizade e a felicidade em nossos lares.
 
Já eu, um escroto disfarçado de inocente, ovelha amiga, encosto de vizinho filho da puta, saio na rua de madrugada, mijo no meio da rua. E por três vezes, em lugares estratégicos, mijo na porta de casa de alguns dos vizinhos. No outro dia, ninguém diz nada, nem ao menos sente. Durante uma semana reúno mijo em baldes e garrafas pets, minha esposa se espanta e pergunta para o que é. Ela não gosta da resposta, brigamos feio. Na madrugada, hora dos segredos, jogo os litros de mijos acumulados durante a semana nas janelas, portões e portas alheias “me esforcei para beber muita água”. No outro dia, deu até policia.
Mas quem seriam esses adolescentes marginais?
Depois de um ano, esperando a madrugada certa, juntando merda no quarto dos fundos em frízeres que comprei, saio pela rua espalhando merda pela portas, portões e janelas alheias. E antes de entrar em casa, cago no meio da rua, cago com gosto, pois havia passado dois dias sem cagar. Minha esposa, nesta parte da história, preferiu o sociável ao amável. Ninguém vive de amor.
Bons vizinhos bons amigos bons vinhos. Quem será que anda fodendo a nossa casa de merda e mijo? Perguntam-se. Três anos depois, estava eu com pacotes de merdas e garrafas pets de mijo em frente a uma das casas de um vizinho novo na vizinhança, destes que, quando me via, me amava.
Jogo o primeiro balde de merda. Fez até um desenho bem artístico na parede em questão. Queria estar com a máquina fotográfica para publicar essa foto em meu blog. Chego perto da casa desse novo vizinho para jogar por cima do muro o balde de mijo em seu jardim, quando ouço um barulho e sinto uma dor em meu peito. Fui baleado. Estou frio...
 
No outro dia, todos se surpreenderam. Mas eu estou cagando e andando para vocês.
No velório, alguém faz discurso “...era um homem que sabia compartilhar...”, outro clama em voz amiga e saudosa “...vamos musicar todos os seus poemas...”. E, no velório, todos foram, e fizeram até uma vaquinha para arcar com as despesas. Afinal, eram todos bons vizinhos bons amigos bons vinhos.  

 

ASS: José Augusto Sampaio

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