COLA!
Dois olhos negros, plastificados, cobriam a tela branca. Um litro de leite, guaraná, o dia, a manhã, amanhece e as coisas continuam plastificadas. É tipo assim: Resolvi me mudar e mudar as coisas minhas pra esse novo lugar que ainda não adentrei, mas que já conhece todas as minhas novas coisas novas. É tipo assim: O chão te conforta, as cores te relaxam, a água continua sem gosto, (mesmo que você invente um, dizem ser culpa do sistema), ai você não quer ver seus amigos, eles andam amigos de mais, e o que sobra? Nada, é por isso que resolvi mudar e estou aqui com minhas novas coisas plastificadas, sem entender muito bem por que não as estupro e usufruo de toda a liberdade e gozo que elas me proporcionariam. Imaginem aquela coisa nova, com cheiros, gostos, sentidos e tudo mais que toda coisa nova que se preze tem que ter. Certa vez um amigo ao adentrar minha antiga moradia, disse que a mesma, tinha o cheiro da finada sua avó. É impressionante, mas eu tive uma namorada que peidava como minha avó, o mesmo ruído e a mesma catinga, podíamos estar entre milhares de pessoas, que eu saberia que tinha sido ela ou minha avó. É assim, toda coisa tem seu cheiro, que em algum momento da vida, se torna infiel e se apossa de outra coisa. Entre possibilidades sensoriais e meu quase inexplicável receio, existe também a antiga e insuportável impressão de já ter visualizado meu novo lar sabe-se lá em que parte de minha pequena e repetitiva existência. É tipo assim: Todo seu corpo não funciona em questão de segundos que mais parecem anos e logo vem aquela necessidade idiota de comunicar o acontecimento à pessoa próxima, como se fosse à aparição de uma formiga com tromba: Hei, eu já vi esse lugar antes! É horrível, mas todo mundo faz isso. Senti-me assim agora, analisando um pouco mais o ambiente. E essas coisas com plástico, pra quê uma casa toda plastificada? Hum, sei não! Esse lugar é muito coisado! Eu nem entrei e já tô me sentindo assim, sei não! Analiso um pouco mais a estrutura, detalhando os detalhes e comprimindo o espesso. Crio coragem e entro no lugar. Toco as coisas, as paredes, e nada, nada era plastificado, e não sei o porquê, eu via tudo como se fosse, até que toco meu rosto e percebo que todo ele está plastificado, tento com todas as forcas arrancar isso de minha cabeça e não consigo, o ar vai me faltando, tudo vai escurecendo, as mãos formigando, vejo que vou desmaiar... Abro os olhos e estou vendo a tela do computador através de uma garrafa pet.
HUGO DOS SANTOS.