É natal
Dandara achou uma moeda de um real no quarto do patrão, onde ela fazia faxina. Ela sorriu como menina. Guardou-a na calcinha, bem no lado. Quando fazia faxina usava calcinha estilo cuecão.
O cliente, daqueles que quase nunca aparece, pagou um real de moeda a mais. O padeiro, o dono da padaria, patrocinador das massas e guloseimas, percebeu e rio, pensou em seu natal e não devolveu a moeda. O cliente vai para casa porque breve é natal e nunca mais lembrará daquela moeda.
O padeiro pagou Leandro. No meio do pagamento, a moeda de um real que veio a mais na transação com o cliente esquecido. O total foi: R$ 500. Dez horas de trabalho por dia, sem hora extra e sem confraternização. Verdade, nem confraternização pra enganar os funcionários o patrão fazia.
Leandro lembrou do natal do seu filho, de suas duas filhas e de sua mulher. No momento em que lembrou-se de sua mulher, lembrou de uma cerveja. Da sinuca. Lembrou dos amigos que o faziam ri. Gastou a moeda de um real dada pelo seu patrão com um salgadinho pra repartir na mesa. Mas especificamente, um salgadinho de pimenta. O dono do bar chama seu filho e diz:
_Toma filho, seu presente antecipado do natal. É a primeira parte.
Ele, pretinho, de dois anos, pega a moeda de um real e sorri como só a criança sabe. Assim: ...oheihfklncodjbhfojnfkewndiuegdlckndcb... De forma inimaginável sorri.
Ele, pequeno, lindo, pretinho anda pelo bar. Escorrega e deixa a moeda cair. Guilherme, seu irmão mais velho, pega a moeda, vai até o pipoqueiro, que o vende duas pipocas por um real. E vai-se a moeda de um real para o pipoqueiro, que ouvindo Guilherme falar “é Natal meu tio”, vendeu duas pipocas que são R$ 1,60, por um real. O pipoqueiro foi pra casa.
9 da noite, ruas vazias. Passando pelo bairro nobre, andando sozinho, passam três meninos, adolescentes. Eles gritam e querem pipoca. Um diz:
_Meu amigo, minha mãe pode comprar o seu negócio ai. Passa essa pipoca. É natal.
Os meninos todos eram Sandálias. Inclusive o pipoqueiro com àquela sandália remendada. Ele perdeu o um real, o carrinho de pipoca e dois dentes. E mesmo assim foi para casa feliz e vivo. É natal, tenho que pensar no lado bom. O pipoqueiro se indaga.
Felipe, um dos ‘morta-fome’ de pipoca e agressor do pipoqueiro, botou a moeda de um real em seu cofre. Aníbal, o irmão mais novo de Felipe, quebrou o cofre. E com essa moeda de um real, Aníbal comprou um DVD Pirata de uma Ex-Deputada fodendo com um Ex-Galã Global.
O telefone do vendedor de DVD toca, ele reúne alguns dos discos e pega um ônibus. A moeda de um real segue em seu bolso. Já é noite e enfim ele lembra do natal, pois a cidade está cheia de pisca-piscas.
Ele desce. Pega o celular. Dá um toque em outro celular. Recebe a ligação de volta. Ele espera.
Cícero chega e aperta a mão do vendedor de DVD que estava no bolso. Cícero dá um dinheiro a ele e o deseja feliz natal. Cícero volta ao trabalho. 8 horas da noite vai para casa. Ele tira de seu bolso a moeda de um real, que veio grudada com o presente que ele comprou na mão do vendedor ambulante. A moeda cai no chão de sua casa. Ele, com preguiça, não a pega. À noite, sua amiga Feliciana aparece em sua casa, para eles comemorarem o natal. Na manhã de sábado, ele e sua amiga recebem Dandara.
_Dandara, os produtos pra faxina estão na dispensa. Fui. À noite volto.
Ele, Cícero, nunca mais lembraria da moeda. E Dandara, limpando o quarto dele, achou, ao meio de camisinhas usadas, a moeda de um real. É natal. Ela pensou e guardou a moeda em sua calcinha.
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Depois de algum tempo sem publicar contos, poemas e outros, estou de volta.
Espero que o próximo ano seja de harmonia e amor.
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Até breve
José Augusto Sampaio