A deputada eleita e atual secretária de Saúde do Estado do Piauí, Lilian Martins, abre a série Mulheres na Política.
Confira, abaixo, a entrevista!
NOME: LILIAN DE ALMEIDA VELOSO NUNES MARTINS
CARGO/FUNÇÃO: Deputada Estadual; Secretária de Estado da Saúde do Piauí
BREVE BIOGRAFIA: É graduada em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí - COREN-PI (14.264). É especializada em Enfermagem Médico-Cirúrgico pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em Administração Hospitalar e Sanitária pela Universidade Gama Filho (UGF), Rio de Janeiro. É também graduada em Direito pela Universidade Estadual do Piauí – (OAB/PI – 3528), com especialização em Direito Processual Civil pelo Instituto Magistratus, da Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro. Começou a trabalhar com 17 anos de idade. Foi professora de Inglês do colégio São Francisco de Sales, o DIOCESANO; docente da disciplina Médico-Cirúrgica na Escola de Enfermagem Bezerra de Araújo em 1981, no Rio de Janeiro. Implantou e chefiou a Unidade de Educação em Serviço do Hospital Santa Maria, no ano de 1979 em Teresina. Foi enfermeira Supervisora da Clínica São Vicente, de julho de 1981 a maio de 1983, no Rio de Janeiro – RJ; Enfermeira Supervisora do Serviço de Emergência do Hospital Getúlio Vargas, entre 1983/1984 Teresina – PI; Enfermeira-Chefe do Serviço de Emergência do Hospital Escola Getúlio Vargas, de 1985 a março de 1991; Enfermeira da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar CCIH – do Hospital Escola Getúlio Vargas, de abril a outubro de 1991 Teresina – PI em 1993. Foi enfermeira da Fundação Municipal de Saúde, aprovada em concurso público Teresina – PI; Diretora da Divisão de Organização dos Serviços de Saúde – DOSS – da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí – SESAPI, de 1991 a janeiro de 1994; Coordenadora da Comissão de Serviço de Enfermagem – ABEN-PI, biênio 1984/1986; Vice Presidente da Associação Brasileira de Enfermagem, no triênio 1989/1992. Lilian Martins atua na vida pública desde 1994, assessorando de perto a vida política do então Deputado Wilson Martins. Foi eleita a Deputada Estadual pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) no pleito de outubro de 2006, com a expressiva votação de 55.795 votos, recorde na história do Legislativo Piauiense, para o quatriênio 2007 a 2010, iniciando uma nova etapa de sua vida pública, tendo como meta prioritária defender ações para o desenvolvimento sustentável, setor primário e políticas públicas voltadas para o gênero feminino e saúde. Como marca maior tem imprimido sua disciplina, capacidade de trabalho e assiduidade, o que se acredita tem sido fundamental para lhe conferir uma destacada atuação na Assembléia através das Comissões Técnicas, sessões ordinárias, audiências públicas, participação em frentes parlamentares, apresentação de projetos que viraram leis, tem apresentado ainda inúmeros requerimentos, pareceres e algumas emendas a Constituição Estadual, entre outros. Reeleita em 3 de outubro de 2010 com 66.529, superando o seu próprio recorde. É Secretária de Estado de Saúde do Piauí a partir de 01.01.2011.
Coluna: O que é uma mulher no poder? O que muda no jeito de governar?
Secretária:O poder não se constrói no vazio, assim o atual crescimento de mulheres nos espaços de poder pode ferir interesses. Ao longo do tempo, com bases em pesquisas com diferentes focos sociais, econômicos, culturais e políticos, fiquei ciente que o silêncio da mulher em momentos de necessária participação prestigia hegemonias cartoriais, amacia as contradições e descredibiliza a política e sua legitimidade.
Igualdade entre homens e mulheres na política e maior inserção feminina nos espaços de poder, tem que ser de interesse da nação, pois não há desenvolvimento humano integral sem se aproveitar o potencial de realização de mais da metade da população brasileira, que já é de 52%.
Coluna: Como a senhora vê a eleição da Dilma Rousseff (PT), a primeira presidente mulher do país?
Secretária: O simbolismo da sua eleição serve como exemplo para as cidadãs brasileiras. A importância de Dilma presidenta reside na tentativa de desnaturalizar a ausência de mulheres no poder para que isso deixe de ser uma exceção. A agenda não deveria ser só como eleger mais mulheres, mas como mudar a política para que isso não seja um feito excepcional. Dilma é parte da heróica geração que cumpriu um papel democrático na luta contra a ditadura militar e hoje pertence a uma elite feminina do planeta.
Coluna: A Dilma poderá servir como um estímulo para outras mulheres tentarem carreira na política?
Secretária: Sem dúvida, a responsabilidade em dar o exemplo pode ser um grande diferencial. Aliás, a mulher tem sempre que se provar em dobro, infelizmente. A mulher é mais hábil nas políticas de conciliação, compartilhamento e co-responsabilidade. No pleito de 2010, nós formamos um eleitorado de 70 milhões - 5 milhões a mais que os homens; e das 20 mil candidaturas, apenas 4 mil foram de mulheres.
Coluna: A maioria de homens em cargos públicos se deve a uma tradição patriarcal na nossa política?
Secretária: Sim. O problema é estrutural, histórico e envolve a política formal que ainda no mundo inteiro continua dominado por homens. A reduzida representação das mulheres pode ser explicada por vários fatores tais como: predominância da cultura patriarcal, características do processo eleitoral (ancorado no poder econômico e jogo de influência) e da representação política (atividade essencialmente masculina) e as desigualdades competitivas de gênero: tripla jornada de trabalho e a lógica de estrutura e funcionamento dos partidos políticos.
Coluna: A senhora acredita que a legislação estadual e o cenário político e administrativo piauiense mudarão em que aspectos com o crescimento da presença feminina nesses setores?
Secretária:Não ter ninguém na gestão que represente a visão de quem toma a decisão, influencia ou controla na ponta, é um erro. O aumento significativo de mulheres no parlamento fará decisivamente com que a produção de leis seja feita também sob a ótica feminina, vislumbrando dessa forma uma igualdade tão almejada, hoje comprometedora da democracia.
Coluna: Como a mulher pode ser o diferencial na política piauiense? O que muda e deve mudar na sua administração a frente da Secretaria de Saúde?
Secretária: O gênero por si só não é garantia de mudança, mas é um bom começo. Nós somos mais críticas, controlamos mais as emoções, somos mais sensíveis e mais responsáveis. Associado a tudo isso temos nossas características individuais, assim, tento não me deixar seduzir pelo rito e encantos do poder, e busco incessantemente usar os mesmos instrumentos que todos têm ter para resultados diferentes. A saúde do Estado é um desafio e não pode ser um aparelho do governo ou partido. A cultura da gestão eficiente (metas com resultados) é o que quero deixar como legado para a população do meu Estado.
Coluna: A senhora acredita que o maior destaque de mulheres no cenário político é uma tendência que irá se consolidar no Piauí? Por quê?
Secretária: O histórico apesar de lento, mostra isso. O retrocesso não tem mais aconchego na vida do Estado. O voto popular se automizou, afastou-se dos que diziam representá-lo pela via do mandonismo, assistencialismo etc. Hoje, emerge a crescente consciência das massas de identificar seus interesses concretos e os mais aptos a defendê-los, dessa forma, a consolidação é cada vez mais uma realidade com perspectivas reais de aprofundamento.
Coluna: Em que o olhar feminino se destaca do masculino na forma de governar?
Secretária: A expectativa é de que uma mulher na chefia do executivo seja de uma gestão mais sensível as causas sociais, embora não necessariamente devesse haver razão para isso. Se fizermos uma análise das administrações femininas nos diversos países, verifica-se que a convicção política ou outra ordem de fator tem sido preponderante em relação à questão de gênero. As mulheres também se subordinaram a ideologias partidárias e assim sendo, gênero e ideologia em muitos momentos não se misturam. Vale lembrar que a maioria das mulheres tem gestão compromissada com a construção de espaços institucionais para a implementação das políticas para as mulheres.
Coluna: Como a senhora vê o crescimento e maior aparecimento da mulher no mercado de trabalho em cargos que majoritariamente eram ocupados por homens?
Secretária: Com entusiasmo. O feminismo discutido na segunda metade do século XX trouxe a tona o tema da igualdade entre os sexos e a emancipação da mulher com a carreira profissional. A crise econômica dos últimos vinte anos fez com que a mulher procurasse postos de trabalho, mas ainda há diferença de rendimentos. Nos cargos de chefia, as mulheres ganham 91,2% do que ganham os homens, e se continuar a média de equiparação de 0,12% ao ano, só em 2085 chegaremos ao mesmo patamar.
Bom lembrar que as mulheres hoje vislumbram a possibilidade de mobilidade social e estabilidade através de concurso público. É importante dizer que 62% dos formandos de ensino superior são mulheres, e empregadas com nível superior excede 50% e mais de 25% com ensino médio completo.
Das 500 maiores empresas privadas do país, só 18 a 20% tem mulher na posição de comando. No setor público, os programas de profissionalização e capacitação são importantes para superar obstáculos para ascensão profissional e no setor privado a arma é a qualificação. Hoje se tem um grande problema: igualdade de oportunidade, isso é fato.
Coluna: Estatisticamente, os maiores cargos ainda são ocupados por homens. Eles também detêm os melhores salários. Na política eles ainda são maioria. A senhora acredita que ainda será longa a luta pela igualdade de gêneros?
Secretária: Historicamente, atividades e profissões tidas como masculinas começam, de forma tímida, a mostrar outro cenário.
Coluna: A senhora acredita que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações?
Secretária: Legalmente sim; de fato, ainda há muito que percorrer. As bases da desigualdade de gênero estão principalmente nas construções sociais e não só na biologia o que abre a real possibilidade de transformar as estruturas sociais, de maneira a reverter os processos geradores de desigualdade e mover outras capazes de produzir igualdade.
Coluna: Qual sua opinião sobre legislação protetora dos direitos da mulher?
Secretária: Não acho que exista legislação protetora da mulher. O que há, é que os diferentes devem ter tratamento diferente para se alcançar a igualdade. Não é privilégio, é uma forma de se reparar danos, equívocos de costumes e leis feitas somente sob a ótica masculina. O que em um primeiro momento possa parecer proteção ou algo parecido é resultado da luta de mulheres virtuosas do nosso país. “Proteção ao direito da igualdade sem deixar de manter a tutela da liberdade”.
Coluna: O Piauí é considerado um Estado em que o machismo ainda predomina? O que a senhora mudaria ou irá contribuir para mudar este cenário com sua posição?
Secretária: O Piauí, só, não; o Brasil. A participação efetiva na vida política do estado e o exemplo podem ser um bom começo para diminuir o fosso alimentado pelo machismo. Patriarcalismo significa domínio e marginalização.
Coluna: É difícil conciliar a política e a vida familiar?
Secretária: Não é fácil, mas hoje a linha divisória entre o mundo particular (família) e o mundo público do trabalho está cada vez mais tênue. É importante se estabelecer prioridades e começar por elas. Política só deve ser feita com paixão, de forma a representar essencialmente os valores da população.
Coluna: Estudos comprovam que mulheres bem sucedidas tem menos chances de casar e ter filhos. A senhora concorda?
Secretária: É questão de foco. A disponibilidade de tempo da mulher, nos dias atuais, é bem menor, além do que, mulheres independentes, inteligentes, que priorizam o profissional ou a vida publica ainda assustam... e muito!
Coluna: Estudos atestaram que no nordeste brasileiro há uma predominância de famílias matriarcais e maior ascensão profissional da mulher. Em que aspectos isso contribui para uma melhor realidade?
Secretária: É um estilo de núcleo familiar que tem a ver com a maior participação das mulheres no mercado de trabalho, inserção nos diferentes espaços públicos e mudanças culturais. Grande parte deles é composta por mulheres sem cônjuge, configurando uma sobrecarga ainda maior nessa condição. O preço é muito alto, mas a história mostra que este é um caminho que tem gerado transformações.
Coluna: O que a senhora acredita que precisa ser mudado rapidamente para que as mulheres possam ter seus direitos assegurados?
Secretária: Maior participação das mulheres na vida política administrativa do seu país/estado não só para novas conquistas, mas principalmente para garantir os frutos das várias lutas ao longo dos tempos.
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Secretária de Saúde Lilian Martins é entrevistada na série
"Mulheres na Poliítica"