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Periscópio

15.08.2008 | 06:05:47


A China infla o peito, confira a coluna Periscópio

A China infla o peito

 

JOSÉ REINOSO - El País - 10/08/2008

Tradução de Antonio de Freitas

 

Os Jogos Olímpicos são a grande vitrine da China que deseja ser a grande superpotência do século XXI. A nova geração de líderes comunistas leva o gigante asiático pelo caminho do capitalismo sob o lema da 'ascensão pacífica'. Desafios pendentes: desigualdades, corrupção, direitos humanos e falta de democracia. Renunciará o partido a seu monopólio do poder?

"A máxima prioridade do país neste momento é que os Jogos Olímpicos sejam um sucesso". A frase, pronunciada há uns dias pelo presidente chinês, Hu Jintao, diante de um grupo do Politburo do Partido Comunista Chinês (PCCh), não deixa lugar a dúvidas. Pequim deve triunfar no maior evento esportivo que se celebra no mundo a cada quatro anos. Porque os Jogos, com uma audiência global que alguns observadores cifram em quatro bilhões de telespectadores, são a grande janela para o mundo e tem um efeito para a imagem do país organizador que vai muito além das duas semanas e meia que dura a competição. E se não for assim, que perguntem a Barcelona, cuja ressonância e popularidade dispararam como conseqüência dos Jogos Olímpicos de 1992.

Para os dirigentes chineses é imprescindível que o grande evento seja um sucesso de organização, segurança, meio ambiente e, se for possível, também esportivo, porque isto lhes permitiria lograr seu objetivo: sancionar a ascensão da China na cena internacional e subir ao pódio dos países poderosos e respeitados. Ao mesmo tempo legitimará o regime para a população com um banho de nacionalismo.

"Barcelona é uma cidade muito bonita. Eu gostaria de ir". Não diz um jovem universitário, instruído ou viajado, dos que há cada vez mais na China, mas um habitante da Pequim popular que nunca em sua vida saiu do país, mas que, como muitos chineses, segue com fidelidade a televisão.

Durante os últimos meses, as cadeias oficiais emitiram numerosas reportagens relacionadas com os Jogos, e Barcelona foi um dos objetivos dos jornalistas. Daí que quando se pergunta aos locais sobre o que conhecem da Espanha, contestam que os touros (pela televisão), o futebol (preferentemente, o Real Madrid) e Barcelona (de ouvir falar). "E as mulheres são muito bonitas", acrescentam. Se tiverem mais cultura, citam três artistas: Dalí, Gaudí e, em menor medida, Picasso. Os três, curiosamente, relacionados com a capital catalã.

Para o Governo de Pequim não se trata de, com os Jogos, impulsionar o turismo num país que já figura entre os primeiros destinos de viagem do mundo, mas de dar uma nova versão para aquela frase que Mao Zedong pronunciou em 1 de outubro de 1949 desde o alto da Porta da Paz Celestial, na praça de Tiananmen, quando proclamou a fundação da República Popular da China: "O povo chinês se pôs de pé".

Não é que agora o povo chinês não esteja de pé. Em absoluto. Há muito tempo que as potências coloniais saíram do país. E ainda que subsista entre a população e os dirigentes certo complexo de inferioridade, incubado pelas longas décadas de invasão estrangeira e debilidades política, econômica e tecnológica, o complexo está esfumando-se na mesma velocidade que a China ascende degraus, até transformar-se, inclusive em altivez. "Os funcionários chineses se comportam às vezes com arrogância nas reuniões que temos no Ministério de Relações Exteriores. São conscientes do poder que adquiriu seu país, e nos fazem notar", afirma um diplomata europeu. "Até quando vão utilizar como desculpa a humilhação colonial?"

Os dirigentes têm motivos para estarem orgulhosos dos sucessos alcançados. O país asiático já é a quarta economia mundial. Seu produto interno bruto ascendeu a 24,7 trilhões de yuanes (2,3 trilhões de euros) em 2007, e este ano poderia superar a Alemanha e situar-se como terceira. Ultrapassar o Japão e logo aos Estados Unidos é somente questão de tempo. Ao fim e ao cabo, a China têm mais de 1,3 bilhões de habitantes e, ainda que em renda per capita esteja muito longe da cabeça, o valor absoluto de uma economia conta, e muito.

O Governo do presidente Hu Jintao deseja que seus atletas cheguem no mais alto nos Jogos Olímpicos, que começaram na sexta-feira passada e finalizarão no dia 24 de agosto. O qual significa, simplesmente, superar os Estados Unidos em número de medalhas de ouro. Em Atenas, a China obteve 32, três a menos que seu rival norte-americano, e alguns analistas calculam que nesta edição logrará mais de 40, e baterá os Estados Unidos. Porém, sobretudo, os líderes querem que o evento seja uma celebração das três décadas de reformas econômicas, e mostre a rapidez com que o país se modernizou.

A história da China deu um giro de 180 graus em dezembro de 1978, dois anos depois de que falecera Mao, pondo fim à Revolução Cultural (1966-1976), o movimento radical lançado pelo Grande Timoneiro para reavivar o espírito revolucionário e desfazer-se de seus inimigos políticos. Foi em dezembro daquele 1978 quando seu sucessor, Deng Xiaoping, pôs em marcha o processo de abertura e reforma, que substituiu o sistema de economia planificada de herança soviética pela chamada economia de mercado socialista, ou, o que é o mesmo, um capitalismo do melhor corte ocidental sob o controle absoluto do Partido Comunista Chinês.

O Pequeno Timoneiro – pequeno, inteligente e pragmático como poucos - mandou ao traste com o maoísmo e sua herança, sacou o país do isolamento, o abriu ao investimento estrangeiro e o lançou no maior e mais acelerado processo de mudança que viveu uma nação na história da humanidade.

Hoje, o comunismo é pouco mais que uma palavra no nome do partido único governante. A educação e a saúde são pagas, e nada têm a ver que sejam públicas ou privadas. Público não significa gratuito neste país. Assim que quem não tem dinheiro não pode se permitir estudar, nem algo mais grave, cair enfermo.

Como dizem os chineses, quando alguém sofre uma doença grave, não somente afeta a ele mesmo, mas também a toda sua família e sua rede de amigos, que são quem tem de emprestar o dinheiro para fazer frente às elevadas contas. Isto surpreende a muitos turistas, e homens e mulheres de negócios, quando chegam a Pequim. "Mas a China não é um país comunista?", 'exclamam'.

Desde que Deng lançou o processo de mudança, a China experimentou um desenvolvimento econômico e social extraordinário, que recebeu o aplauso de organismos internacionais e Governos estrangeiros. Durante estas três décadas, a economia cresceu numa média anual de 9,7%, e centos de milhões de pessoas saíram da pobreza, ainda que continue existindo 318 milhões que vivam com menos de dois dólares diários.

Quem conheceu a China de 20 anos atrás e conhece a atual acredita ver dois países distintos. Milhares de quilômetros de rodovias, dezenas de portos e aeroportos, hospitais, complexos hidrelétricos e centrais nucleares de última geração surgiram por toda a geografia, enquanto que as cidades se transformaram completamente, dando passo a bosques de arranha-céus, hotéis de luxo, linhas de metrô e largas avenidas pelas quais passeiam jovens vestidos com roupa - verdadeira ou falsa - das melhores marcas estrangeiras. Jovens que possuem carros novíssimos se divertem em 'karaokês', bebem whisky misturado com chá e dançam até o amanhecer em discotecas nas que soam a última música ocidental.

Grande parte destes jovens está orgulhosa de seu país; dos sucessos chineses como, por exemplo, o de haver se convertido em 2003 na terceira nação do mundo, atrás dos Estados Unidos e da antiga União Soviética, de colocar um ser humano em órbita terrestre, ou da crescente influência política e econômica chinesa. Por isso, e ajudados pela política nacionalista do Governo, respaldaram com paixão a organização dos Jogos e criticaram duramente os incidentes que marcaram o recorrido internacional da tocha olímpica. Até ao ponto de - como afirmam numerosos blogs e foros de Internet - interpretar estes protestos como um ataque contra a ascensão chinesa.

A maioria desconhece a verdadeira situação dos direitos humanos em seu país, não lhes importa, e entre os que têm uma idéia, a maior parte diz: "Já sei que na China há problemas, porém a situação está melhorando". Ou seja, o discurso oficial de Pequim, que exerce um controle absoluto sobre os meios de comunicação.

O XVI Congresso do PCCh, celebrado no outono de 2002, marcou a chegada de uma nova geração de líderes, encabeçada por Hu Jintao - hoje com 65 anos- e o primeiro-ministro, Wen Jiabao, da mesma idade. Chegaram levantando a bandeira da defesa dos mais desfavorecidos, preocupados com a tremenda brecha social, a corrupção estrondoso e a deteorização ambiental que produziram as três décadas de desenvolvimento meteórico.

Enquanto o anterior presidente, Jiang Zemin, gostava de rodear-se de executivos de grande multinacionais como o presidente da Microsoft, Bill Gates, Hu e Wen lutam por transmitir uma imagem de homens do povo. Cada inverno, quando chega o Ano Novo chinês, a finais de janeiro, vão visitar camponeses em povoados poeirentos, a mineiros em poços profundos e a outros coletivos desfavorecidos, ali onde estejam, para compartir, diante das câmaras de televisão, uns quantos 'jiaozi', uns raviólis recheados e fervidos, muito populares nessas festas. Para a ocasião costumam vestir jeans modestos e tênis.

A China confia em si mesma, e têm ambição. Mas não é uma ambição imperialista, asseguram seus líderes, que se esforçaram em transmitir ao mundo - com irregular sucesso - sua idéia de 'ascensão pacífica' (heping jueqi). A teoria, utilizada pela primeira vez a finais de 2003 num discurso do ex-subdiretor da Escola Central do Partido, Zheng Bijian, para contrapor a chamada 'ameaça chinesa', resume o bem arejado objetivo de manter boas relações com o mundo e assumir sua responsabilidade global. Ou seja, como Hu e Wen repetiram numerosas vezes em suas viagens pela Ásia e Estados Unidos, que a China nunca buscará a hegemonia mundial, mesmo que nem todos acreditem.

Zheng Bijian apontou no seu discurso que, no passado, a ascensão de uma potência muitas vezes supunha uma mudança drástica do equilíbrio geopolítico mundial e inclusive conflitos bélicos. Assegurou que isto ocorria porque os Governos destes países elegiam a via da agressão e da expansão, o que finalmente conduzia ao fracasso. A situação mudou hoje e a República Popular da China deve desenvolver-se de forma pacífica, e criar um entorno de estabilidade internacional, com uma mensagem muito clara: que o mundo se beneficiará de uma China estável e poderosa, disse a autoridade chinesa.

Alguns países receiam. Pequim quer paz e estabilidade para crescer, mas o que ocorrerá depois? Perguntam-se. Os Estados Unidos são conscientes de que a máquina asiática é muito potente e, sobretudo, paciente. Em definitiva, pensam os dirigentes chineses, que são umas quantas décadas frente aos cinco mil anos de história que reivindicam para seu país? Washington teme perder sua hegemonia global, a liderança no oceano Pacífico e vê com maus olhos o contínuo incremento do orçamento militar chinês - muito inferior, em qualquer caso, ao seu - e, sobretudo, a falta de transparência com relação a "no quê se gasta".

Mas a economia estadunidense está cada vez mais entrelaçada com a chinesa e o presidente George W. Bush há tempo deixou de falar da China como rival estratégico, como fez na sua primeira legislatura, e se acercou à visão européia de considerá-la um sócio. Milhares de empresas norte-americanas estão instaladas no país asiático, onde produzem desde carros até os tênis que calçam seus cidadãos. E o que dizer da langerie, as camisas e os artigos de eletrônica, que importam a baixos preços da China para alimentar as práticas consumistas de sua população, desde o Oregon até o Alabama.

Para vizinhos como o Japão e a Índia, o despertar do dragão chinês supõe também um desafio, pela busca de recursos energéticos e porque no passado se enfrentaram militarmente, e para Europa representa um grande desafio para suas empresas, que viram como a concorrência asiática forçou o fechamento de fábricas e a demissão de milhares de trabalhadores.

Os Governos europeu e estadunidense criticam que a moeda chinesa está infra-valorada, o que favorece a atividade exportadora das companhias asiáticas, ainda que desde que em julho de 2005 Pequim atrelou o 'yuan' - ou 'renminbi'- a uma cesta de moedas -incluídos o dólar, o euro e o 'yen'-, em lugar de estar unido só ao bilhete verde estadunidense, não deixou de valorizar-se. As autoridades monetárias disseram a principio que flexibilizariam a taxa de câmbio progressivamente, o repetiram e assim o estão fazendo, em boa parte devido à pressão ocidental.

Os Governos estrangeiros criticam também que a nação asiática não respeitou alguns dos compromissos assumidos quando entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, e que o crescimento da pirataria e a infração de direitos de propriedade intelectual são assustadores. Os sindicatos estrangeiros argumentam que as condições laborais na China são deploráveis, mas o mesmo ocorre em outros países em desenvolvimento, como Índia, Vietnã ou Camboja, e assim aconteceu na Europa ou nos EUA.

A "ascensão pacífica", uma das primeiras iniciativas postas em marcha pela quarta geração de líderes chineses - as três precedentes foram as de Mao Zedong, Deng Xiaoping e Jiang Zemin -, encabeçada por Hu Jintao, é um dos principais eixos da política externa chinesa. O outro eixo é conhecido como 'diplomacia do petróleo', segundo a qual Pequim baseia suas relações com outros Governos, em boa medida, nas suas prioridades econômicas, o que explica as freqüentes viagens dos dirigentes à África ou à América do Sul.

Numa visita realizada por Wen Jiabao aos Estados Unidos em dezembro de 2003, o primeiro-ministro afirmou que a política estrangeira de um país está cada vez más ligada ao que percebe que são seus interesses nacionais e a seu próprio desenvolvimento, e para China, assegurar-se de fornecimento de recursos energéticos e matérias primas - petróleo, cobre, gás o urânio, entre outros -, das que tanto carece, é a chave para seguir crescendo. O país asiático é o segundo maior consumidor de petróleo do mundo depois dos Estados Unidos.

Dois exemplos desta tática ocorreram recentemente. Em junho passado, Pequim e Tóquio alcançaram um compromisso para desenvolverem conjuntamente campos de gás natural no mar da China oriental, numa zona que ambos consideram dentro de suas fronteiras e que fora durante anos fonte de atritos. O acordo foi facilitado pela suavização que experimentaram as relações entre ambos os rivais históricos. E no mês passado, a China e a Rússia firmaram um acordo que fixou definitivamente os 4.300 quilômetros de fronteira comum e pôs fim a quatro décadas de disputas sobre a demarcação de seus territórios. Os intercâmbios entre os dois Governos melhoraram consideravelmente nos últimos anos, em boa medida pelo afã comum de contrapor o peso político e econômico dos Estados Unidos, mas também pela sede chinesa de gás e petróleo russo.

Em paralelo, o Executivo de Hu Jintao multiplicou os esforços para polir sua imagem diplomática internacional e corresponder à sua posição como um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Para isto, deixou, pouco a pouco, de atuar discretamente na sombra, como era sua tradição, para assumir responsabilidades e um papel sob os focos, como demonstram sua atuação nas negociações para resolver a crise nuclear da Coréia do Norte e o envio de soldados em missões de paz.

Para a diplomacia chinesa, as chaves são a "não ingerência nos assuntos internos de outros países", e a construção de relações baseadas no 'beneficio mutuo' ('win-win', em inglês). Isto leva, conseqüentemente, a olhar muitas vezes para o outro lado e fazer negócios com alguns Governos que violam sistematicamente os direitos humanos, o que lhe valeu as críticas do Ocidente.

Se externamente o objetivo é mostrar um país pacífico e colaborador, internamente a prioridade dos dirigentes é conseguir para 2020 uma "sociedade moderadamente acomodada", ou de classe media ('xiaokang', termo registrado pela primeira vez em 'O clássico dos ritos', um dos cinco livros clássicos chineses associados a Confúcio). Como sempre, os líderes olharam para o passado para construir o futuro.

Ao 'xiaokang' soma-se o outro objetivo socioeconômico do Executivo de Hu Jintao, a criação de uma 'sociedade harmoniosa' ('hexie shehui', uma idéia proposta pelo partido comunista em 2005 para mudar diametralmente do desenvolvimento a qualquer preço para uma economia mais equilibrada. As desigualdades sociais - entre as maiores do mundo -, as diferenças entre as províncias ricas da costa e as pobres do interior, bem como entre as cidades e os povoados, chegaram a tal nível que o Governo reconheceu que supõem um perigo para a sobrevivência do PCCh, um partido ao que muitos daqueles que se filiam, o fizeram unicamente para conseguir um posto na Administração. A renda per capita mensal nas zonas urbanas cresceu a 1.148 yuanes (108 euros) em 2007, 79% mais que em 2002, enquanto que no campo foi de 345 yuanes (32 euros), 67% mais que cinco anos antes.

À fratura social soma-se uma longa lista de desafios: manter um crescimento da economia superior a 7% para proporcionar empregos à população; interromper a corrupção, que custa 3% do PIB por ano; controlar a inflação e diminuir a poluição. Contudo, 70% dos rios chineses estão contaminados e a chuva ácida afeta a um terço do território.

A implantação de uma política mais igualitária e respeitosa com o meio ambiente foi referendada no XVII Congresso do partido, celebrado no passado outubro [o conclave têm lugar a cada cinco anos]. A Constituição do PCCh foi modificada para incluir o conceito de 'desenvolvimento científico' impulsionado por Hu Jintao, que impõe a necessidade de que os avanços econômicos não se produzam a qualquer preço.

Por outro lado, a China tem que administrar com atenção suas relações com Taiwan e fazer frente às tensões separatistas nas regiões autônomas de Xinjiang - onde supostos terroristas muçulmanos 'uigures' mataram na segunda-feira passada, dia 04 de agosto, a 16 policiais de fronteira -, e Tibet, onde em março a população local se levantou contra o que considera a falta de liberdade religiosa e a destruição de sua cultura por parte do Governo central. As manifestações, inicialmente pacíficas, degeneraram em violentas e foram reprimidas com dureza pelas forças de segurança, o que fez planar a sombra do boicote sobre os Jogos Olímpicos.

Os dirigentes tomaram contundentes medidas para reduzir as brechas: eliminaram impostos milenários aos camponeses, investiram bilhões de euros em construção de infra-estruturas nas províncias do interior, estão estendendo a gratuidade dos nove anos de educação obrigatória e implantando um sistema de seguros médicos. Tarefas ingentes e com resultados desiguais, num país de 1.300 milhões de habitantes.

A manutenção da estabilidade e a construção de uma 'sociedade harmoniosa' entram muitas vezes em conflito com os interesses individuais. Mas na China, o que o Governo considera o bem coletivo passa por cima do particular. Ademais, 'estabilidade' significa para o PCCh impedir qualquer dissidência, crise ou levantamentos, como os que no passado sacudiram o país derribando dinastias ou fazendo correr perigo a continuidade do partido. É o caso das manifestações a favor da democracia de Tiananmen, em 1989, que acabaram numa matança. Algo que os dirigentes querem evitar a todo custo em sua acelerada marcha para converter a China numa superpotência. Pequim argumenta, também, que há forças querendo derrocar o Governo e acabar com o partido comunista, e aponta algumas organizações não governamentais, políticos e intelectuais estrangeiros com estes interesses.

As vozes que se levantam desde fora de suas fronteiras em contra das contínuas violações dos direitos humanos são numerosas: Anistia Internacional, Human Rights Watch, Human Rights in China, Reporteros Sin Fronteras, defensores de Darfur, organizações religiosas, o movimento de inspiração budista Falun Gong e grupos contrários à pena de morte ou defensores dos direitos nacionais de Tibet, entre outros.

Também há vozes dissidentes dentro da China, sejam políticas ou de peticionários que exigem compensações justas pelas expropriações, ainda que o Governo as reprima com dureza. Um dos casos mais proeminentes é o de Hu Jia (ativista ambiental, defensor dos afetados pela AIDS e porta-voz dos dissidentes nos cárceres chineses) e sua esposa Zeng Jinyan. Hu, de 35 anos, foi detido em dezembro passado e condenado em abril a três anos e meio de cárcere em um julgamento que durou um dia, por "incitar à subversão do poder do Estado". O arresto de Hu foi interpretado como uma forma de silenciar a um dos dissidentes mais críticos com o Governo, ademais expô-lo como castigo exemplar. Zeng, sua mulher, está submetida a vigilância domiciliar.

Na semana passada, Anistia Internacional (AI) acusou às autoridades chinesas de descumprirem a promessa que fizeram quando conseguiram os Jogos em 2001, a de que melhorariam o estado dos direitos humanos no país. Outras organizações se pronunciaram nas últimas semanas no mesmo sentido. Segundo afirmam, a situação não só não melhorou diante do evento esportivo, como piorou. Desde meses, Pequim aumentou os controles sobre ativistas, que foram postos sob vigilância ou, diretamente, detidos e acusados de querer "subverter o poder do Estado" ou de "revelar segredos de Estado".

Quando os Governos estrangeiros criticam esta situação ou a gestão do Tibet, Pequim replica que são assuntos internos e que nenhum país tem direito a imiscuir-se neles. Um embaixador ocidental afirma: "Já não vale dizer 'isto é uma questão interna'; vivemos numa aldeia global e as ações devem ser justificadas e argumentadas".

Pequim afirma que o Ocidente é injusto e que a situação dos direitos humanos melhorou. Eles afirmam que o primeiro direito humano é o direito da população chinesa se alimentar. Contudo, deficiente diante do Ocidente da legitimidade que outorga haver ganhado o direito de governar nas urnas, o Governo chinês tem perdida no momento a batalha das relações públicas.

A grande pergunta que se faz tanto quem visita a China pela primeira vez como quem leva anos vivendo nela é se algum dia chegará a democracia ao Império do Centro. Hu Jintao prometeu reformas controladas e uma maior participação dos cidadãos nos assuntos políticos do país para 2020, o ano que fixou para conseguir a "sociedade moderadamente acomodada", mas advertiu que qualquer avanço neste sentido será realizado sob o Governo absoluto do partido.

Analistas e observadores políticos estrangeiros consideram que é imprescindível que a China melhore suas estruturas de Governo para poder seguir avançando. "A insegurança judicial e a corrupção são grandes problemas. Um país moderno e desenvolvido não pode existir sem um Estado de direito. Esta é a chave do futuro", afirma o diplomata europeu antes citado.

Os dirigentes chineses afirmaram repetidas vezes que nunca adotarão um modelo de democracia de estilo ocidental. Ao mesmo tempo caminham numa direção mais oligárquica, com uma liderança baseada na busca de acordos e o consenso. Porque os tempos de grandes figuras históricas, como Mao ou Deng, acabaram. Tratar-se-ia de um sistema de consenso que a partir de 2012 está previsto que seja administrado pelo atual vice-presidente, Xi Jinping, de 55 anos, e o vice-primeiro-ministro Li Keqiang, de 53, que devem suceder a Hu e Wen nos seus cargos, respectivamente. Xi é o máximo responsável pela organização dos Jogos.

A história chinesa do último século - marcada pela guerra civil, fomes, caos político e isolamento - explica em boa medida porque a maioria da sociedade não reclama por mudanças políticas e porque os Jogos Olímpicos são um motivo de celebração para muitos cidadãos, apesar das vozes dissidentes, devidamente silenciadas. O país é estável e cada vez mais rico.

É impossível entender a China sem olhar para o passado. Uma anedota ilustra muito bem isto. Uma professora de mandarim foi perguntada por seu aluno, há alguns anos: "Por que os chineses dizem Leste-Oeste, Norte-Sul quando falam dos pontos cardinais e não ao contrário?" Esta respondeu: "A forma de pensar chinesa e a ocidental são diferentes. Onde você acredita que estão o futuro e o passado?". O aluno respondeu de imediato: "O futuro está adiante e o passado detrás". "Não", respondeu, ela. "Na China, o passado está adiante e o futuro está detrás, porque para ir até o futuro deves olhar sempre para o passado". Isto é o que marca profundamente as decisões de seus líderes e explica porque querem que os Jogos Olímpicos sejam um grande sucesso.

 China

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

China (中國 em chinês tradicional, 中国 em chinês simplificado, Zhōngguó no sistema pinyin e Chung-kuo no sistema Wade-Giles)[1] é uma antiga unidade histórica, cultural e geográfica na parte continental do leste da Ásia, incluindo algumas ilhas que desde 1949 foram divididas entre a República Popular da China (que inclui a China continental, Hong Kong e Macau) e a República da China (que inclui Taiwan e algumas ilhas da província de Fujian).

A palavra China costuma referir-se a regiões que, em termos mais específicos não fazem parte dela, como é o caso da Manchúria, da Mongólia Interior, o Tibete e Xinjiang (ver mapa das divisões da China). Nos meios de comunicação ocidentais, "China" refere-se, normalmente, à "República Popular da China", enquanto que "Taiwan" se refere à "República da China". Muitas vezes, em termos informais, especialmente entre chineses e ingleses (no contexto do mundo dos negócios), "a Grande região da China" (大中华地區) refere-se ao sentido mais lato, tal como foi apresentado no parágrafo anterior.

Na sua história, as capitais da China situavam-se, essencialmente, no leste. As quatro capitais mais citadas são Nanquim (Nanjing), Pequim (Beijing), Xian, e Luoyang. As línguas oficiais foram mudando ao longo da sua extensa história, (incluindo línguas entretanto desaparecidas), incluindo o mongol, o manchu e os vários dialetos do chinês, entre os quais o mandarim (em chinês Hanyu, pronunciado haN ü, ou seja, /h/ como hat, em inglês, e /ü/ como o som do "u" francês) e o cantonês.

A palavra portuguesa "China", bem como o prefixo associado, "sino-", derivam, provavelmente, de "Qin" (pronúncia "tchim", onde o "q" é pronunciado como um alveopalatal, como o "ch" na palavra inglesa chest). Há quem defenda, no entanto, que China derive da palavra chinesa para chá (igual à palavra em português que, aliás, tem a sua origem etimológica no próprio mandarim) ou, mesmo, de "seda" (note-se, em jeito de nota de rodapé, que é vulgar a associação entre a palavra china e os produtos que têm aí a sua origem: china, em português, também pode significar porcelana) . Qualquer que seja, contudo, a origem da palavra "China" (que é uma palavra europeia, não existindo em qualquer das línguas sino-tibetanas) foi-se perdendo à medida que era filtrada pelos vários povos atravessados pela Rota da Seda, que fazia a primeira ligação histórica estável entre esta região asiática e a Europa. (Ver também: China nas várias línguas mundiais)

História da China

A China aparece desde cedo na história das civilizações humanas a organizar-se enquanto nação (ainda que a identidade nacional chinesa seja complexa), demonstrando um pioneirismo notável em áreas como a arte e a ciência, ultrapassando largamente, na altura, o resto do mundo. Em cerca de 1000 a.C., a China consistia num conjunto complexo e intrincado de reinos de pequenas dimensões. Em 221 a.C., todos estes reinos foram anexados ao estado Qin, dando início à Dinastia Qin.


Na história da China, ao longo dos séculos, num movimento pendular, verificamos períodos de união e de desunião. No século XVIII, a China experimentou um progresso tecnológico acentuado, em relação aos outros povos da Ásia Central, ainda que tivesse perdido terreno se comparada à Europa. Os acontecimentos do século XIX, em que a China tomou uma postura defensiva em relação ao imperialismo europeu ao mesmo tempo que estendia o seu domínio sobre a Ásia Central, podem ser explicados sob este ponto de vista. Veja Guerras do Ópio, Rebelião Taiping e Levante dos Boxers.

No início do século XX, o papel desempenhado pelo Imperador da China desapareceu em 1912, com a proclamação da república por Sun Yat-sen, e posteriormente com a China a entrar num período de desagregação devido à Guerra Civil Chinesa. Atualmente há duas regiões que reclamam, formalmente, para si o nome de China: a República Popular da China e o Governo pré-revolucionário da República da China, que administra Taiwan e várias pequenas ilhas de Fujian. Ver também: Cronologia da história Chinesa, Dinastias Chinesas, História de Hong Kong, História de Macau, História de Taiwan.

Política
Depois da unificação sob o Império Qin, a China foi dominada por mais 10 dinastias, muitas das quais comportavam um complexo sistema de reinos, principados, ducados, condados e marquesados. Contudo, o poder era centralizado na figura do Imperador. Este era ainda coadjuvado por ministros civis e militares e, principalmente, por um primeiro-ministro. Aconteceu, por vezes, o poder político ser tomado por oficiais (eunucos), ou familiares. As relações políticas com regiões dependentes do império (reinos tributários) eram mantidas à base de casamentos, coligações militares e ofertas. Atualmente, a China é governada pelo Partido Comunista Chinês, que realizou a planificação econômica chinesa, fundado por Mao Tsé-tung.


Ver também:

Soberano Chinês, Direito Chinês, Lista de partidos políticos na China

Território

Originalmente na Dinastia Zhou, a China compreendia a região em torno do Rio Amarelo. Desde então que se expandiu para ocidente e para sul (até à Indochina), tendo atingido proporções máximas durante as dinastias Tang, Yuan e Qing. Do ponto de vista chinês, o Império Chinês teria, mesmo, incluído partes do Extremo Oriente Russo e da Ásia Central, durante as fases em que a Dinastia Yuan se mostrou no auge do seu poderio, ainda que a China fosse, nesse caso, meramente um dos vários territórios do Império Mongol.


Durante o Império Qing, o valor da Grande Muralha da China na defesa da integridade territorial do império diminuiu devido à sua expansão. Em 1683, Taiwan torna-se parte do Império Qing, originalmente como uma prefeitura da província de Fukien. As principais divisões administrativas da China foram sendo modificadas ao longo do tempo. No topo da hierarquia administrativa, encontramos os circuitos e as províncias (sheng). Abaixo destas divisões foram aparecendo prefeituras, subprefeituras, departamentos, comarcas (xiang), distritos (xian) e áreas metropolitanas. Existe alguma indefinição na tradução para português das divisões administrativas.
Ver também: Divisões políticas da China

Geografia

A China contém uma larga variedade de paisagens, sobretudo planaltos e montanhas a oeste e terras de menor altitude a leste. Como resultado, os rios principais correm de oeste para leste (Chang Jiang, o Huang He (do oriente-central), o Amur (do nordeste), etc), e, por vezes, em direcção ao sul (Rio das Pérolas, Rio Mekong, Brahmaputra, etc). Todos estes rios deságuam no Pacífico. Possui uma área de 9 572 909 km².

No leste, ao longo da costa do Mar Amarelo e do Mar da China Oriental, encontramos uma extensa e densamente povoada planície aluvial. A Costa do Mar da China do Sul é mais montanhosa. O relevo da China meridional caracteriza-se por serras e cordilheiras não muito altas.

A oeste, há outra grande planície aluvial, a do norte. No sul ocidental, encontramos uma meseta calcárea atravessada por cordilheiras montanhosas de altitude moderada onde, nos Himalaias, se situa o seu ponto mais elevado (Monte Everest). O sudoeste é ainda caracterizado por altos planaltos cercados pela paisagem árida de alguns desertos, como o Takla-Makan e o deserto de Gobi, que está em expansão. Devido à seca prolongada e, provavelmente devido a práticas de uma agricultura empobrecedora dos solos, as tempestades de poeira tornaram-se comuns durante a primavera chinesa.


Durante muitas dinastias, a fronteira sudoeste da China foi delineada pelas altas montanhas de vales escavados de Yunnan, que, hoje, separam a China dos estados de Burma, Laos e Vietname.

Clima

Devido às suas grandes dimensões territoriais, a China apresenta diversos conjuntos climáticos. Porém destacam-se na definição geo-climática do país quatro climas: De Montanha: a sudoeste, ocasionado pela cordilheira do Himalaia; Continental Árido: na região central e abrangendo a maior parte do território do país, o que explica a baixa densidade demográfica e o pouco desenvolvimento urbano dessa região; Subtropical: a sudeste; Temperado Continental: a região nordeste, onde há cerca de 70% da concentração populacional do país.

Relevo


China é também um país de grandes montanhas, zonas montanhosas, planícies e colinas que ocupam 65% da superfície continental. Segundo o alinhamento podemos distinguir cinco sistemas de montanhas. A cordilheira de Kunlun, a norte do Himalaya, separa a alta planície de Qinghai-Tibete do deserto de Taklamakan, três dos seus cumes superam os 7000 metros: Muztag, Muztagata e Kongur; a cordilheira Tianshan, mais a norte com as seus cumes nevados; a cordilheira Xingan, no noroeste da China; e por último a cordilheira Hengduam e Qilian. As montanhas atingem especial altitude no setor ocidental para descer progressivamente para a costa. Há montanhas de singular beleza como é a Montanha Huangshan, a única zona de paisagem exclusivamente montanhosa que se encontra no sul da província de Anhui. Trata-se de uma montanha conhecida pelos seus singulares pinhos e pedras estranhas. Tem mais de setenta afiados picos que estão permanentemente cobertos por nuvens e nevoeiro. Os aspectos a salientar são os pinhos, as rochas, as nuvens e as fontes termais.

Flora


A China oferece uma grande variedade de solos que correspondem-se aproximadamente com as regiões geográficas. Ao norte da China encontramos na Bacia do Tarim o cinzento desértico, os pardos e férteis loes da planície, o castanho terreno florestal da Manchúria e as produtivas terras aluviais da Grande Planície do norte. Na China Central a Bacia Vermelha caracteriza-se por um fértil solo florestal cinzento-castanho, e a planície e delta do Yangtsé pelos seus terrenos aluviais. Na China meridional o solo é vermelho com abundantes materiais lateríticos. No Tibete destacam os terrenos pedregosos, semelhantes aos montanhosos da tundra.


Dado o fato da China ser um enorme país, que abarca os mais variados climas, não é surpreendente que exista uma grande variedade de espécies vegetais e animais. Parece que a vegetação natural da China estava formada por bosques mistos discontínuos de caducas e coníferas próprios de zonas temperadas; mas devido ao cultivo intensivo, esta vegetação desapareceu há muitos séculos. Desgraçadamente o impacto humano chega a ser considerável, por isso a riqueza natural é rara ou está em perigo de extinção. O governo tem estabelecido mais de 300 reservas naturais, protegendo por volta de 1, 8 % do território. O maior problema é a destruição do habitat causado pela agricultura intensiva, a urbanização e a produção industrial.

A flora tem "progredido" bem, apesar da pressão de mais de 1.000 milhões de pessoas, mas a desflorestamento, o pastoreio e os cultivos intensivos têm feito grandes estragos.

A última grande extensão florestal chinesa está na região sub ártica do nordeste, perto da fronteira russa. Pela sua diversidade de vegetação, a zona em redor de Xishuangbanna, no sul tropical, é a mais rica do país. Esta região também procura habitat para manadas de elefantes selvagens; porém, tanto os seres vivos como a floresta tropical estão sob a pressão da agricultura, da tala e da queimada.

Talvez a planta cultivada mais bela seja o bambu. Há muitas variedades e é cultivado no sudeste, para ser utilizado como material de construção e alimento. Outras plantas úteis incluem ervas, entre elas o ginseng, horquilha dourada, angélica e fritilaria. Uma das árvores mais raras é o abeto branco de Cathay na província de Guangxi.

Fauna

A variedade de animais selvagens e domésticos é muito ampla. Além de estar representadas a maior parte das aves canoras e de caça, existem 800 variedades nativas do país. Ao norte, no nordeste especialmente, habitam animais selvagens como o tigre, o antílope, o cervo, o goral (antílope cabra), a ovelha azul, o

leopardo, o lobo e os mamíferos de peles. No Tibete pode-se ver ovelhas, yaks, pandas gigantes e ursos selvagens. No sul proliferam tigres, gibones, macacos e caimanes. Há que assinalar que o animal mais raro da Ásia Central é o urso formigueiro.


Talvez não exista na China animal mais representativo da beleza e luta pela vida selvagem do que o

urso panda. Estes belos animais, atualmente em perigo de extinção devido à combinação da caça, a invasão do habitat e os desastres naturais, sobrevivem graças aos tímidos esforços do governo central. Com escassa densidade, povoam as regiões de Sichuan, Tibete e Xinjiang, que provêem de habitat a outras magníficas espécies, como o leopardo das neves e os yaks selvagens. O extremo noroeste da China está habitado por alguns interessantes mamíferos como renas, alces, cervos almizcleros, ursos e martas. Também há uma considerável ornitofauna como grullas, patos, abutardas, cisnes e garças.

A ilha Hainam também possui variada vegetação tropical e vida animal. Há sete reservas naturais na ilha, embora é justo dizer que ainda algumas espécies em perigo de extinção, terminam no prato da comida.

Entre os animais domésticos encontram-se cães, gatos, patos, gansos, frangos e porcos que abundam em todo o território da China. Os

búfalos aquáticos são nativos da zona sul da Península de Shandong. O zebu habita no sul e nordeste da China; no noroeste criam cabras, ovelhas e cavalos. Os camelos e as vacas são importantes também no nordeste. Há também variedade de peixes

 

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07.08.2008 | 16:14:27


Entrevista com Carla Bruni

JESÚS RODRÍGUEZ – El País - 20/07/2008

Tradução de Antonio de Freitas

É a primeira-dama da França e uma cantora de sucesso. Carla Bruni nos recebe em sua casa de Paris, o segredo melhor guardado da França, para falar de sua música e seu amor por Sarkozy.

A espera transcorre na cozinha da primeira-dama enquanto seu filho, Aurélien, de sete anos, brinca pelo jardim entre rosas molhadas de gotas de chuva de uma pancada de verão, e Teresa, a babá peruana, resmunga em castelhano: "Mi hijito, apúrate". Carla Bruni, madame Sarkozy, habita numa bolha no coração do exclusivo distrito XVI de Paris. Um lugar secreto ao fundo de um beco com nome de cardeal, empedrado e sem saída, onde dois membros do Grupo de Segurança do Presidente, jovens e raspados, com jeans e pistolas ao cinto, descem pela rua, vindos do furgão onde estavam, quando detectam a presença de um estranho e lhe exigem sem cerimônia a documentação. Detrás do muro branco e da porta azul surge o segredo melhor guardado da República: o refúgio do casal presidencial. Um hotelzinho branco, antiquado, pequeno e luminoso, que poderia estar na Provença ou na Normandia, emoldurado num pequeno retângulo de erva. A entrada natural da casa atravessa a cozinha. É a alma da casa. Ali o silêncio é absoluto. Apenas os pássaros. Sobre uma mesa a correspondência pessoal do presidente, uma sanfona ardente e uma caixa para charutos decorada com a imagem do Che em esmalte vermelho e negro e uma vistosa frase autógrafa: "Hasta la victoria siempre". Presente do Comandante.

É a casa de Carla Bruni; seu refúgio; no extremo oposto do palácio do Elíseu, a Chefia do Estado, onde seu marido, Nicolas Sarkozy, guarda o gatilho nuclear da força de choque francesa em plena rua do luxo parisiense. Além da distância geográfica, a residência de Madame (como os seguranças se referem a ela; ou 'a artista', como lhe denomina sua companhia de discos) estão nas antípodas do suntuoso estilo de vida bling bling do Faubourg Saint-Honoré e toda a pompa sarkozyniana. Esta casa é discreta, sóbria, cálida e cômoda. Sem obras de arte nem móveis intocáveis. Com piso de madeira sem verniz e teto infinito. Troncos a meio consumir na chaminé, uma lâmpada frouxa para ler e 'To me', o cachorro da anfitriã, dormindo entre o massacrado veludo ocre de um sofá. Uma casa de milionária sem bobagens. Seu castelo.

O curioso é que Carla Bruni, ex-top model planetária, ex-amante de Jagger, Trump e Clapton; cantora e compositora de sucesso, mulher anúncio e, desde o passado 2 de fevereiro (depois de um noivado relâmpago com Sarkozy transmitido ao vivo), primeira-dama da França, não oculta esse retiro fechado ao jornalista. O abre de par em par. "Nunca me escondo; não sei como se faz".

Bruni não recebe na suíte de um hotel do centro da cidade, à distância de 15 minutos, por acesso rodeada de uma corte de assessores para cumprir a penosa obrigação de promover seu terceiro disco, que sai nestes dias à venda. Madame Sarkozy, de 39 anos, recebe sozinha. Em casa. Sem condições. Nem questionários prévios. Nem chamadas telefônicas intempestivas. Nenhuma contagem regressiva para concluir a entrevista quando deixar de interessar-lhe.

Madame Sarkozy recebe e se despede com um beijo e um sorriso. As únicas interrupções durante a entrevista serão as queixas de Aurélien, exigindo a sua mãe que lhe preste atenção. Madame lhe despacha firme.

Carla Bruni aparece na cozinha de surpresa. Abre a geladeira (abarrotado de iogurtes, água Perrier e comida para criança), pega uma cerveja e oferece outra. Bebe sua cerveja diretamente pelo gargalo. Acende um cigarro apoiada sobre o aparador. Conserva o porte etéreo daquela manequim que desfilou entre 1988 e final dos noventa para todos os grandes da moda. Veste um pequeno jérsei de cashmere cinza de manga curta de Dior, uma ampla calça azul e mocassim de Gucci. A única jóia é a mínima aliança de brilhantes no dedo anular esquerdo de umas mãos grandes, como seus pés. É alta e atlética. Com um físico de nadadora com curvas. Tem uma pele branca e cheia de sinais. Que se dobra em alguns lugares. Já não é uma menina. Porém quando se desliza ondulante pelo polido mármore enxadrezado do corredor 'déco', com a cabeça alta, o olhar perdido e o cigarro entre os dedos, um tem a sensação de vê-la sulcando de novo as grandes passarelas do mundo.

Sem embargo, seu rosto despista. É difícil de descrever. Belo, porém irreal. Luminoso, porém do tom e a pureza imóvel da cera. Leva a cara lavada e uma meia melena com reflexos cor a cobre que cai sobre sua cara e a oculta em parte. Tem uns olhos bailarinos azul acinzentados, ligeiramente puxados. O nariz está perfeitamente esculpido. A boca é pequena e quando ri descobre uns dentes talhados a mão. A voz é suave ainda que firme. Com uma leve rouquidão de fumante. Salta do inglês ao francês e ao italiano. Aceita e pratica a linguagem coloquial. Coisa rara num francês. Menos ainda se tratar da primeira dama da nação. "Não se esqueça que sou italiana. Bom, já não sou… sou francesa… já não sei nem o que sou".

Deixou-me entrar na su casa para falar de seu terceiro disco, "Comme si de rien n'était". O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre ele? O que realmente eu gostaria de explicar é que fazer um disco, escrever e plasmar o que queres, é sempre uma sorte; um refugio frente a realidade da vida. Porém fazer este disco ao mesmo tempo em que estava casando e com toda a sobrecarga mediática que tínhamos em cima, me proporcionou um refugio ainda maior; um refúgio indestrutível. Fazer este disco representou uma das épocas mais agradáveis e mais cálidas de minha vida. Porque à medida que minha vida se fez mais pública para o exterior, eu tive mais ainda que proteger meu interior. Desdobrei-me. Meti-me numa bolha. E a música e escrever canções converteram para mim em algo mais essencial do que era antes. No meu refugio frente a um exterior que me superava.

Quando começou a trabalhar nele? Comecei a escrever há um ano e terminei de gravá-lo em fevereiro. O mês que nos casamos.

O título do disco, 'Comme si de rien n'etait', ('Como se não passasse nada') se interpretou como uma metáfora de sua curiosa situação como cantora e, ao mesmo tempo, como primeira dama da França… Esse título é o de um retrato de meu irmão Virgilio que está dentro do disco; porém, efetivamente, é algo mais, descreve muito bem como fizemos o disco. O fizemos como se não houvesse passado nada, ilhados. Livres. Isso é importante para mim e por isso escolhi esse título.

É uma homenagem para seu irmão? Um pouco. Morreu de HIV há três anos. Tinha 45. Eu lhe amava muito. Era meu irmão mais velho. Sua vida era navegar. Há uma canção dedicada a ele, uma valsa, 'Salut marin', na qual lhe desejo uma boa singradura.

Por que um disco agora? Muitos pensavam que não ia voltar a cantar… Que depois de seu casamento com o presidente da França você entrava numa nova etapa de sua vida. Tive muita sorte com minha companhia discográfica ao editar meu primeiro disco, porque tive sucesso e vendemos, e então tive a oportunidade de fazer um segundo disco, 'Promises', e um terceiro, que é este. Tudo vem do primeiro, não é uma idéia ia que nos tenha surgido agora… Não é nada forçado. Por que fiz este disco? Porque é meu trabalho e tenho a sorte de poder fazê-lo.

Questionou-se se era bom para a carreira política de seu marido? Não lhe dei nenhuma volta. Não gastei nem um minuto em pensá-lo. Escrevi todas as canções e tínhamos data para a gravação antes de toda a confusão, e nunca, na medida do possível, rompo um compromisso.

Ninguém a pressionou desde o palácio do Eliseu? Ninguém lhe disse que não era o momento? Ninguém interferiu nas minhas decisões. A ninguém lhe importa.

Alguns meios de comunicação dizem que seu disco favorece a carreira política do presidente num momento em que sua imagem pública está muito deteriorada; outros, pelo contrario, pensam que lhe prejudica. O deputado socialista Pierre Moscovici chegou a afirmar que sua presença mediática como cantora "é, sem dúvida, parte de uma operação de reconquista da opinião pública pelo Chefe do Estado". Pensa que sua carreira musical influi na vida política do presidente? Tenho muito pouca influencia na vida política do meu marido, que é uma coisa muito séria, um trabalho muito serio que tem que ver com assuntos muito sérios e não tem nada que ver comigo. Do que estou segura é de que ao ser sua mulher, minha vida pode enriquecer-se mais porque posso aprender muito e ajudar às pessoas.

A popularidade de seu marido no seu primeiro ano de mandato caiu embicado. Acredita que essa baixa nas pesquisas tem algo que ver contigo? Tem a ver com os tempos difíceis que correm para as pessoas na França. Tem a ver com o fato de que ele quer mudar muitas coisas e as pessoas não gostam de tanta mudança. Há muito imobilismo. Tem a ver com a economia, que está numa situação difícil. Tem a ver com os combustíveis, que estão muito caros… Porém, não tem a ver comigo. Não sou tão importante.

O presidente apoiou a sua decisão de lançar este disco? Todo o tempo. É difícil para ele, porque tem um trabalho muito duro e necessita uma esposa que esteja ao seu lado, porém também sabe que me tem incondicionalmente e me apóia.

Como? Deixando-me tranqüila quando necessito tempo; estando comigo quando perco a confiança; animando-me quando me deprimo (porque quando escrevo fico louca); empurrando-me quando fico preguiçosa. Em tudo, como qualquer esposo. Meu marido e eu não somos diferentes de outros casais.

Você firmou contrato com a sua companhia por três discos. Este será o último? Não.

Sem embargo, li que durante o tempo em que o presidente Sarkozy estiver no cargo, ou seja, ao menos durante este qüinqüênio, não pensa fazer mais discos… Se me chega a inspiração, farei outro disco. Se as pessoas se importam com o que faço; se não choca à opinião pública, se não molesta aos cidadãos, farei discos até morrer.

Não lhe incomoda que o juízo da crítica sobre seu trabalho, para bem ou para mal, seja tudo menos musical? O que mais me preocupa na vida é a indiferença. Quero que gostem ou que não gostem, com maiúsculas, porém que não deixe a ninguém indiferente.

O problema é que considere bom ou mau por sua qualidade artística, não porque seja a esposa do presidente da República. Tem razão, porém eu fazia discos antes de conhecer a meu marido e já me julgaram antes de conhecer a meu marido. Escrevia canções antes de acontecer a meu marido e espero poder seguir fazendo até morrer.

Carla Bruni pesa suas palavras com uma balança de precisão. Conta e não conta. Responde às perguntas comprometidas com frases curtas. Se refere a Sarkozy como "meu marido", nunca como Nicolas ou o presidente. Não levanta a voz. Não se agita. É de uma calma zen. Joga com a ambigüidade. Como se estivesse relatando a vida de outra pessoa. Como se a primeira dama não fosse ela. Como se tudo fosse um jogo. Uma aventura. O salão, onde transcorre a entrevista, está aberto para o jardim e repleto de discos. Clash, Stones, Lou Reed, Bob Dylan, Gainsbourg, Brassens, Antony and the Johnsons, Cat Power, Portishead. E de livros. Borges, Proust, Maupassant, Balzac, Ibsen, Joyce, Proust, Verlaine. Sobre a mesa, entre uma confusão de papéis, um livro a meio ler do filósofo Ráphaël Enthoven, pai de seu filho. E o caótico velho caderno azul de colegial onde escreve suas canções: "Preferivelmente de noite, sozinha, aqui e com uma cervejinha". Num canto, o velho piano Steinway de seus pais: ele, Alberto Bruni Tedeschi, rico industrial de Torino e compositor de óperas; ela, a bailarina e pianista Marisa Borini. As raízes de sua paixão pela arte e, sobretudo, pela música.

Seu disco está feito com a cabeça ou com o coração? Não há discos feitos com a cabeça. No meu caso seria impossível. A cabeça não é importante na música.

Como é seu processo de criação? Quando escrevo uma canção, o faço desde a confusão que rege um momento de minha existência; navego nesse desconcerto até que necessito precisar algo e então escrevo a canção. Cada canção põe palavras a uma confusão; depois me sinto aliviada.

Um disco é algo mais que um produto? Pode que seja um produto para a discográfica; para mim não o é. Para mim é o que dá sentido a minha vida, a expressão do que sinto… o melhor trabalho que poderia ter.

Foi livre ao fazê-lo? Fez o disco que queria? Sou totalmente livre quando canto e quando componho. Talvez demasiado livre…

Não ficaram canções no tinteiro porque não lhes pareceu conveniente a seus assessores? Nunca levo em conta estas considerações, nunca penso na opinião de outras pessoas. No que convém e o que não convém. Posso cometer um erro, porém é como sou. Se considerasse tudo em profundidade, se lhe desse muitas voltas, nunca faria nada de nada.

Se pode adivinhar como é 'madame' Sarkozy através de seu disco? Provavelmente, porém não é uma eleição deliberada. Creio que tudo o que se faz, tudo o que se escreve, é um auto-retrato. Inclusive quando você escreve sobre mim, está fazendo seu auto-retrato. O ser humano é assim.

Porém quanto as polêmicas letras de suas canções vazaram à imprensa, todo mundo as interpretou em plano autobiográfico. Há que escutá-lo como uma confissão? Tudo o que posso dizer sobre mim, o mais profundo, digo nas minhas canções e me alegro de que as interpretem do modo que seja; não me queixo. Que cada um as interprete como queira. Não posso controlá-lo; ademais, eu não gosto de controlá-lo. Não sou controladora. O que eu gosto é que as pessoas interpretem minhas canções. E nesse sentido tenho muita sorte.

Essa mulher enamorada, apaixonada, infantil, divertida, bucólica e um pouco frívola que desenha nas suas letras é ou não é você? Não é exato que escreva sobre mim; melhor dizer que escrevo através de mim, através do que sinto. Escrevo sobre você, ou sobre aquele, porém sempre sou eu, porque sou a que escreve. Não é que tente desenhar-me, tento escrever sobre o que sinto, e sai de mim como um jorro.

Há outro exercício que fizeram os meios de comunicação que é averiguar se cada canção de amor está escrita 'antes' ou 'depois' de que aparecesse Sarkozy na sua vida. Incomoda-lhe? Minhas canções têm muita sorte de conseguir toda esta atenção. Encanta-me.

A questão é que conhecemos todas as suas conquistas desde que tinha 20 anos pelos meios de comunicação. Não lhe incomoda? Para nada, tive uma vida e aí está.

Porém há famosos que ocultam tudo… Que se escondem que negam… Está certo, porém eu não posso fazê-lo. E como não posso e nem sei fazê-lo, pois não me oculto e convivo bem com isso. Inclusive estou contente de não haver ocultado a historia de amor com meu marido. Estamos contentes. Não poderia ser de outra forma.

Podemos repassar algumas canções para que me indique que parte é a autobiográfica? Claro.

Em Ma jeunesse se refere a sua juventude perdida? Sim, senhor, 'Ma jeunesse 'se refere a minha própria juventude.

É uma canção nostálgica? A juventude é uma página que se passa. Não é triste passar a página, é necessário; não se pode estar toda a vida na mesma página.

Outro tema que deu muito que falar é 'Je suis une enfant' ('Sou uma menina'), na qual fala de seus quarenta anos e seus trinta amantes… E é certo, sou uma menina; uma menina velha… E não posso evitar. Há amigos que ficaram mais velhos e são sábios e ministros. Porém eu não sou sábia. Sou ignorante.

E os 30 amantes? Você é uma donjuán ?; Por certo, vi as memórias de Giacomo Casanova na sua biblioteca… Sou uma mulher normal. E se alguém me compara com Casanova, é que não leu suas memórias.

Você sempre foi livre e muito sincera na expressão de suas relações sentimentais. Sentiu-se vítima do machismo durante estes primeiros meses como primeira dama? Vivemos numa sociedade machista, porém isso está mudando. Não sei o que haveria passado no caso contrario: se uma presidenta houvesse casado com um cantor, porque creio que, em geral, os homens são mais aceitos que as mulheres. E, sobretudo, que um homem seja independente é mais aceito por nossa sociedade que se tratasse de uma mulher como eu.

Outra canção, 'La possibilité d'une île'. Escreveu Michel Houllebecq. Encantam-me as suas novelas, e me encantam seus poemas. E como é a adaptação de um texto seu, que adoro, é sua historia. Eu só pus a música. Porém, tem algo meu: é uma canção de amor.

Falando de amor, vamos a 'L'amoureuse', uma das últimas canções que compôs; das que, segundo parece, se desenvolveu 'depois de' conhecer a Sarkozy. Essa 'enamorada' é você? Sim. É uma canção sobre os primeiros momentos do amor, quando tudo muda em teu entorno, quando tudo se agita. É um sentimento que conhece todo mundo. Talvez o amor seja a única verdadeira razão da vida.

'Tu es ma came' ('És minha droga'). O amor é sua droga? É uma canção bonita que já havia escrito há bastante tempo; é uma canção sobre o amor apaixonado. Esse amor desesperado de quando alguém necessita da outra pessoa como se tratasse de uma droga; um verdadeiro vício.

Um vício pra toda vida? Espero que sim.

Por certo, esta canção, na que você afirma que seu amante é mais mortal e perigoso que a "heroína afegã" e a "branca colombiana", provocou a queixa formal do ministro de Assuntos Exteriores da Colômbia, que afirmou que essa letra, na boca da esposa do presidente da França, é muito dolorosa para Colômbia… Ohhh, creio que quando as pessoas escutarem a canção se darão conta de que a polêmica foi devido à situação na qual me encontro. E não tem nada que ver com a canção.

Não a entendo… Muito simples. A reação dessas pessoas não procede da canção em si. Nem do que disse. E, por tanto, estou tranqüila. Essa confusão procede de gente que não escutou a canção. Quando escutarem a canção, se são normais, se darão conta de que na foi a canção, mas esta situação de que eu estou casada com o presidente da República francesa, o que provocou sua reação. Porém isso não me concerne como música. Não me afeta. Há que fazer uma distinção clara entre a primeira dama e a artista.

Outro tema que pode suscitar polêmica é como você trata a religião nas suas canções: sempre unida ao amor. Nas suas canções fala de Deus, o pecado de amar, Satanás, o inferno… e o amor. Porém não são canções religiosas, faço canções laicas, muito longe da religião. 'Péché d'envie' [pecado de desejos] é uma canção que fala de um pecado: o pecado de ter desejos de muitas coisas, de comer-se o mundo. E logo digo que espero que Deus ou o Diabo me perdoe desse pecado de querer amar e viver. É uma canção laica.

Não tem você um lado místico? Para nada.

É religiosa? Totalmente laica.

Volúvel? De grandes penas e de alegrias? Sou muito tranqüila. Nunca me levo momentos maus. Sou como parece que sou. Deixo que as coisas fluam.

Sigamos com suas canções. Por exemplo, 'Le temps perdu'. É muito bonita, soa 'anos cinqüenta', porém é um pouco triste… Eu gosto dessa sensação de que o tempo passa rápido, me encanta perdê-lo. Sou uma Profissional de perder o tempo.

Uma 'top model' que não teme que o tempo passe? Sou uma ex-top model. Meu tempo passou. Uma manequim é como um desportista de elite: a partir dos 30 está morta. E a partir dos 35 tens a cara que mereces. Não podes esconder-te. Tenho medo a envelhecer porque quero correr, porque não quero morrer, porque não quero enfermar. Porque não quero ver morrer às pessoas que amo. Porém não é um problema de ser mais ou menos bela.

Sua vida é um exemplo de reciclagem. Quando lançou seu primeiro disco, 'Quelqu'un m'a dit', em 2002, pensei: "Outra 'top model' em decadência tentando continuar no 'show busines", porque as experiências anteriores de Claudia Schiffer ou Naomi Campbell ou Kate Moss fazendo-se de artistas eram muito ruins. Contudo, seu disco era muito bom. Você é um exemplo de reciclagem profissional, de um sucesso atrás de outro sucesso… Os humanos agora têm vidas muito longas. Há um século, as pessoas morriam aos trinta, e agora vivemos até os cem. Não é que haja reciclado minha vida: simplesmente vivo. E a vida me deu esta possibilidade e a aceito encantada.

Essa evolução foi um processo natural? Quando começas na moda, ninguém te engana: tens que ter claro que deixarás de ser modelo quando chegues a uma idade determinada, assim que simplesmente encontrei outro trabalho. Foi assim de simples. Não o forcei. Aconteceu.

Porém nessa profissão de modelo, que foi a sua durante mais de dez anos, é fácil ficar louca de fama, e logo, mais louca ainda ao cair no esquecimento… Eu não. As pessoas vêem de fora o que é ser uma manequim, as festas e as viagens e as fotos, e lhes dá inveja, mas não é o que eu queria que fosse minha vida. Eu lia. E pensava em outras coisas. O que sempre quis é ser séria.

Como era de menina? Dizem que era bonita e inteligente. Mas eu me lembro tímida e sonhadora.

Tinha sucesso com os rapazes? Uhmm, a partir dos 16. Antes não. Na verdade, quando cresci, tentava ter sucesso com os rapazes e com as garotas. Atrair-lhes. Ser querida por todos.

Necessidade de auto-afirmação? Absolutamente.

E agora? Agora também. É o mesmo que então. Minha eterna necessidade de estar bem frente aos demais, de convencer.

Deve ser esgotador… Sim, porém não é culpa minha. É como sou, devo admiti-lo.

Você lê na imprensa tudo o que se escreve sobre você? Não posso. É demasiado. Porém às vezes sim o faço.

Tem sentido de humor? Quando se metem contigo e seu marido, ri ou se magoa…? Só leio para rir. Senão, morreria.

Por exemplo, o semanário satírico 'Le Canard Enchaîné' publica um diário apócrifo seu, 'Le journal de Carla B', onde você chama a seu marido 'taconcito mimo'… Tudo me faz sorrir. 'Le Canard Enchaîné' e 'Le Monde'. Tudo é muito agradável. Estão muito bem escritos. E são muito divertidos. Muito divertidos.

Seu marido não parece ter o mesmo sentido de humor, a julgar por algumas saídas de tom… Ele se protege completamente. Eu não; eu não necessito proteger-me. Não me afeta.

E essa confiança? De menina mimada pela vida? Não sou uma mimada, sou uma lutadora.

Porém tudo lhe saiu bem: uma boa família, dinheiro, bons estudos, uns pais cultos; 'top model', amante de sucesso; cantora de sucesso; primeira-dama. É como um conto de fadas. Tenho muita sorte, mas isso não afugenta os problemas ou os desastres. Todo mundo tem problemas, todo mundo tem desastres. Ninguém pode dizer desde fora se és feliz ou não. Parece um conto de fadas, mas é uma vida. E teus desastres ninguém os conhece. Somente você.

Mas você é a imagem do sucesso… Não. Sou a imagem do trabalho, porque poderia haver me conformado com o que tinha quando nasci. O que me faz mais feliz é o trabalho que fiz desde que tinha 18 anos.

Teve que trabalhar muito para se adaptar a esta nova situação como primeira-dama? A que todo mundo observa com lupa cada um de seus atos? Preocupa-me muito não decepcionar as pessoas; tento ser muito cuidadosa quando represento a França, sobretudo porque sou italiana. Bom, já tenho o passaporte francês, mas sempre fui italiana. Em qualquer caso, não tomo meu papel como um drama, mas como uma aventura.

Desnudou-se demasiado neste disco? Arrepende-se de haver contado demasiadas coisas sobre você? Somente me envergonho das coisas que não fiz.

Não a incomoda que todos nos tenhamos convertido em 'voyeurs' de sua vida e a de seu marido? Ninguém vê minha vida real. Ninguém sabe na verdade como vivemos.

Nem sequer um pouco? Tenho muitíssima vida privada e, ainda que as pessoas não acreditem, é cada vez maior. Cada vez vivemos uma vida mais privada.

Como consegue ter dois chapéus tão diferentes, o de cantora boêmia e o de recatada esposa de presidente? Não é algo esquizofrênico? Não te enlouquece? É muito simples, tenho dois chapéus, mas a cabeça que há debaixo é a mesma: a minha, a de sempre.

Muita gente não compreende como se pode compaginar o ofício de primeira dama com o de artista. Ser primeira-dama consistia até agora em estar casada com o presidente. E estar a seu lado. Até agora! Eu tenho claro que devo representar a meu país no tempo público. Mas também tenho claro que o tempo público é muito breve. Assim que só tenho que comportar-me bem durante um breve tempo público. E creio que estou fazendo bem. Há outra coisa que pode fazer uma primeira-dama, e é ajudar às pessoas, porque é uma posição muito privilegiada e podes pensar nas pessoas que não tem tanta sorte. Assim que ambas as coisas são muitos fáceis de compaginar, porque ser músico é um trabalho distinto dos outros, porque o fazes de uma vez, realizas tudo de uma vez e paras. E podes deixar durante meses ou anos. Pelo que ao final não há nenhuma incompatibilidade, só é questão de planificação, de calendário, de organizar-se. È muito fácil.

Fácil? Ser primeira-dama não é uma tarefa que leve demasiado tempo nem muito trabalho, inclusive no caso de que estes trabalhando em jornada completa. Mais ou menos consiste em estar com teu marido e ajudar aos demais através da vida pública, mas não é um trabalho de verdade, não é como ir ao escritório todos os dias. E escrever canções tampouco é como ir ao escritório todos os dias. Minha função, que é a de ser mulher do presidente, e meu trabalho, que é o de fazer canções, pode compaginar-se porque não ocupam todo meu tempo e posso fazer uma coisa e outra. Agora estou com o disco e não tenho demasiado tempo para ser primeira-dama, mas irei a Israel em viagem oficial e logo depois ao Japão e ao G-8. Faço o que tenho que fazer, e o faço com seriedade, e no resto do tempo faço minha música. E quando termine de fazer minha música, como não irei de turnê com o disco, dedicarei toda minha energia a ser uma perfeita primeira-dama.

E depois está seu filho Aurélien, que vive uma situação que não deve ser muito fácil para um menino. Como vai educá-lo para que este redemoinho mediático não lhe respingue? É uma pergunta que me faço todos os dias. Eu gostaria que fosse feliz, que tivesse uma moral; eu gostaria entendesse o sentido do esforço, e que tivesse consciência de sua situação privilegiada. Que não lhe suba à cabeça.

Disse que Bono, o vocalista do U2, é para você a referência de como alguém famoso pode fazer coisas pelas pessoas. Bono não é só uma referência, deveria ser um exemplo para todo mundo porque está dedicando muito tempo e energia a ajudar aos demais.

O que gostaria de fazer pelos demais? Eu gostaria de utilizar minha posição para ajudar às pessoas; fazer o que possa para ajudar às pessoas, porque há muita gente a que ajudar.

Pode explicar um pouco? Por exemplo, quando fomos à África do Sul vimos um hospital na Cidade do Cabo num bairro segregado que era para tratar os doentes de AIDS, e para se fazer as provas, porque as pessoas desses bairros não querem fazer as provas. Assim que meu marido e eu decidimos abrir 10 hospitais, porque em cada um deles se atende a 10.000 pessoas ao mês, que é muita gente. De modo que posso arrecadar dinheiro para isso; posso encontrar as pessoas que o financiem, posso pedir a meu marido que me ajude. E também vou ceder todos os lucros dos direitos do meu disco, ainda não sei a qual organização, mas quero me assegurar de que o dinheiro deste disco vai para as pessoas necessitadas. E apoiar todo tipo de ações nas que se use meu nome e minha imagem para abrir portas. É claro que não vou fazer nada político, mas humanitário. Não sou política.

Pelo que vejo, com essa calma, dá a sensação de que sua vida não mudou… Minha agenda mudou um pouco, porém não minha vida. É a mesma. Minha casa é a mesma. Esta casa. E não a deixarei. Gostamos.

Mesmo assim, não vai fazer uma turnê musical. Porque há problemas de segurança; é muito complicado…

Vi os seguranças quando entrava na sua casa. Mudou muito sua vida com relação à segurança? É incomodo? O dia a dia não, apenas influi; porém se faço uma turnê e concertos com muita gente, é muito complicado.


Por que se casou? Por que complicou a vida? Por que, sendo uma pessoa tão livre, deu este passo? Porque estou enamorada.

Sim, mas você já havia vivido com outros homens; havia tido a seu filho, e nunca havia dado o passo... Em alguma ocasião comentou que era alérgica ao matrimonio. Bom, Nicolas pediu que me cassasse com ele e ademais é o presidente da França, e os cidadãos não gostam que ele não esteja casado.

Pensou muito? Não. Queríamos nos casar logo, foi incrível. Na verdade, não pensamos em nos casamos, simplesmente o fizemos. Foi automático.

Ele tampouco pensou? Se és presidente, o primeiro que pensas seriamente é se te divorcias de teu cônjuge anterior. Muitos presidentes evitaram se divorciar para não impactar nas pessoas. Ninguém havia divorciado antes e muitos mantiveram uma vida dupla para não incomodar a seus eleitores. Nicolas é uma pessoa normal. Não mente para ser presidente. É uma forma mais moderna de enfocar sua vida e sua carreira. Não teve que eleger entre ter uma vida e ser presidente, tem as duas coisas, por isso é tão moderno.

Moderno? Sim. E totalmente livre. É livre. Creio que é a palavra que melhor lhe define. Senão, não havia casado com alguém como eu.

Mas é um político conservador… Meu marido não é conservador. Não corresponde à idéia que eu tinha de um conservador. Os demais em seu partido podem até ser, nós não.

Dá a sensação de que você se aburguesou… Se tornou mais conservadora nos últimos meses? Para nada. Bom, quando me reúno com a rainha da Inglaterra, não vou levar um vestido sexy, isso está claro. Se isso é ser conservadora, eu sou. Ainda que o veja como uma questão de respeito.

Você estava fantástica com a rainha vestida a Jackie Onassis. Você gostou? Oh, obrigado. Vamos à Espanha no outono. Convidaram-nos. Outra família real, Deus meu!

A da Espanha é outra coisa… A família real inglesa também é muito humana. Porém tem um protocolo tão estrito… A princesa da Espanha era jornalista, não? Deixou de trabalhar? Que pena. Quero falar com ela. Parece adorável. Ela e o príncipe são de minha geração. Tenho muita vontade de conhecer-lhes. E as duas meninitas.

Você sempre se vangloriou de votar na esquerda, se definiu como "epidermicamente de esquerdas", inclusive apoiou a Ségolène Royal nas últimas eleições presidenciais na França. Seguirá votando na esquerda? Sempre votei na Itália, porque fui italiana até há dois meses, e agora votarei na França. Nunca votei na França. Portanto, quando chegue o momento, já verei em quem voto.

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